Linguística histórica - estudos diacrônicos da língua


A seguir reproduzo o resumo que fiz do texto de Carlos Alberto Faraco para a disciplina "História da Língua Portuguesa". A referência do texto conforme a normas vigentes da ABNT é:
FARACO, Carlos Alberto. Linguística histórica: uma introdução ao estudo da história das línguas. São Paulo: Parábola Editorial, 2005. (p. 14-90).

Decidi compartilhar porque acho que esse resumo dá uma boa noção do que é a área de estudo da filologia e da linguística histórica. Boa leitura e se esse post ajudar você de alguma forma me conta nos comentários.  =)

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A percepção da mudança
1.      As línguas mudam
As línguas estão sempre em movimento. As mudanças linguísticas ocorrem contínua e lentamente, a partir de pontos da língua e não dela como um todo. Apesar disso, a língua não perde seu caráter sistêmico.
Culturas que desenvolveram escrita apresentam padrão de língua e um estatuto de estabilidade que juntos refreiam temporariamente as mudanças por servirem de ponto de referência para os falantes.
As inovações linguísticas são comumente feitas pelas gerações mais jovens e por grupos socioeconômicos intermediários. É fácil observar isso ao vermos o contraste da fala de diferentes grupos sociais coexistindo ao mesmo tempo. Daí podemos verificar que nem toda variação implicará em mudança, embora que toda mudança tenha sido variação em um dado momento.
2.      A língua escrita e a mudança
A língua escrita é normalmente mais conservadora que a língua falada. Há três fatores para tal conservadorismo: (1) a escrita realiza-se por meio mais duradouro que o som, o que aumenta a sua permanência, enquanto que até mesmo o controle social é difícil em relação a língua falada; (2) a escrita está, na maioria dos casos, ligada a contextos sociais marcados pela formalidade, nesse ambiente o falante favorece o uso de formas conservadoras; (3) conforme a escala progressiva de implementação de mudança a mudança ocorre da fala informal de grupos socioeconomicamente intermediários, passa para a fala informal de grupos socioeconomicamente altos, depois para fala formal de grupos socioeconomicamente altos, e então para a escrita (observação: nem todas as mudanças passam por esse processo).
3.      Reação dos falantes à mudança e os cuidados do linguista
As atitudes que os falantes assumem frente a mudança comumente são negativas, vendo-as como incorretas, erradas e impróprias, um fenômeno que corrompe e degrada a língua. Isto porque as mudanças geralmente são implementadas por pessoas de baixo prestígio social que tem a sua fala valorada como negativa por grupos privilegiados econômica, social e culturalmente. A mudança chega a dar-se de fato quando esse estigma vai sendo progressivamente quebrado, e as formas inovadoras vão se expandindo e consolidando.
4.      Um dado empírico fundamental: qualquer língua humana é sempre um conjunto de variedades
A gramática tradicional cristaliza uma certa variedade como única, identificando-a com a língua e excluindo todas as outras como incorretas, o que gera no leitor não especializado a impressão de que não há, ou pelo menos não deveria haver, variação linguística, quando na verdade há várias delas. O estudo dessas variações é estudado por diferentes disciplinas linguísticas (dialetologia, sociolinguística e linguística histórica)
A variedade culta (também chamada de “norma”) representa um ideal de língua cultivado pela elite intelectual, pelo sistema escolar e pelos meios de comunicação social; é prestigiada pelas instituições e ocorre principalmente na escrita.
5.      O que pode mudar nas línguas
Qualquer parte da língua pode mudar, em diferentes níveis; pontuais ou em um conjunto de mudanças relacionadas. Análises linguísticas podem ser feitas das divisões apresentadas nos tópicos a seguir. Antes, é preciso ressaltar que não há interpretações únicas e absolutas, elas sempre irão depender da orientação teórica adotada pelo estudioso
a.       Fonético-fonológico: Diz respeito a realidade sonora. Pode ser fonética, quando referida a face física e articulatória ou fonológica, quando referida a face estrutural.
b.      Morfológico: Diz respeito a estrutura interna da palavra, pode afetar seus componentes, seus processos derivacionais ou seus flexionais.
c.       Sintático: Diz respeito ao estudo da organização das sentenças. Um fenômeno importante é a gramaticalização, processo pelo qual um elemento lexical (ou expressão lexical) plena se transforma em elemento gramatical.
d.      Semântico: Diz respeito a significação, que aqui é estudada no âmbito da palavra, que são discutidas em conjunto com as figuras de linguagem (metáfora, metonímia, hipérbole). Pode se verificar a redução ou ampliação de um significado, ou ainda buscar a sua etimologia (reestabelecer a relação entre a palavra e a unidade lexical de origem, mostrando a sequência histórica das alterações).
e.       Pragmático: Diz respeito ao estudo dos elementos linguísticos em contraste com o estudo das propriedades estruturais.
f.        Lexical: Diz respeito a investigação da composição histórica do léxico, observando sua origem e os diversos fluxos de incorporação de palavras de outras línguas (empréstimos), podem estará ou não inter-relacionadas.

Características da mudança
1.      A mudança é contínua
A mudança se dá em todas as línguas, é próprio de todas elas. Cada estado da língua é resultado de um longo processo histórico; em cada momento do tempo as mudanças estão ocorrendo, ainda que imperceptíveis ao falante.
No entanto ao invés de mudar uma língua pode vir a desaparecer. O desaparecimento de uma língua pode se dar porque: a) a sociedade que falava aquela língua desapareceu, como muitas línguas indígenas; b) a língua foi progressiva e completamente assimilada por outra, como o etrusco no século III a.C.; c) a língua não desaparece, mas tem seu fluxo histórico interrompido, como o latim.
2.      A mudança é lenta e gradual
A mudança linguística é contínua, lenta e gradual, nunca ocorre de forma global e integral., passa sempre por fases intermediárias. Mudanças abruptas e repentinas são impossíveis, pois se ocorressem destruiriam as bases da interação socioverbal.
3.      Periodização da história das línguas
As divisões históricas que se faz na língua são cortes arbitrários. Faz-se esse tipo de periodização para melhor analisa-las. É importante frisar que é preciso haver também um encaixamento estrutural e social, já que não podemos estudar os fenômenos isoladamente.
4.      A mudança é (relativamente) regular
Um aspecto que caracteriza a mudança linguística é a regularidade, ou seja, dada as mesmas condições a um elemento em processo de mudança alcançará todas as ocorrências progressivamente. Isso implica em dizer que as mudanças não se dão de maneira fortuita, sem rumo, uma vez desencadeada ela seguirá uma regularidade até atingir a generalidade.
Esse aspecto foi percebido graças ao método comparativo, que a partir do estudo sistemático da correspondência entre diferentes línguas pode perceber a sua regularidade (século XIX). Lembrando que a regularidade é uma característica da mudança linguística, não algo absoluto.
5.      Leis fonéticas e analogia
No século XIX os neogramáticos formularam uma teoria de absoluta regularidade que deveriam ser entendidas como Leis Fonéticas, não admitindo exceções. As aparentes exceções eram atribuídas à intervenção de analogia (processo gramatical) pelo qual a língua tenderia a ser regularizada por força de estruturas hegemônicas. Com isso, gerou-se um paradigma: a mudança fônica regular gera irregularidades gramaticais, e a analogia que é irregular gera regularidade.
Desenvolve-se estudos dialetológicos mostrando que embora a regularidade seja uma característica da mudança linguística ela se dá de modo não uniforme, já que no processo há múltiplos fatores sociais e históricos envolvidos, de mesmo peso que fatores linguísticos. A partir dessa contribuição as Leis Fonéticas foram reinterpretadas, passando a serem vistas como fórmulas que expressam correspondência fônica entre dois ou mais momentos históricos de uma língua, funcionando como auxiliadoras na investigação de processos históricos complexos, agora tendo em vista que as regularidades observadas são relativas.
6.      História interna e externa
História interna é o conjunto de mudanças ocorridas na organização estrutural da língua no eixo do tempo. História externa é o contexto da história social, política, econômica e cultural da sociedade com a qual o fenômeno estudado está relacionado. Pelo que foi dito anteriormente, é claro que não podemos nos fechar no estudo da história interna, uma vez que fatores sociais tem influência direta ou indireta sobre os processos de mudança das línguas – a língua não é uma realidade autônoma, independente da história.
No entanto, no início do século XX há a publicação do Curso de Linguística de Ferdinand Saussure, o qual defende em sua teoria a separação estrita entre o que ele chamou de linguística interna e externa, uma vez que é possível representar formalmente os aspectos de cada uma independentemente. Essa visão foi vista como produtiva em alguns casos, especialmente quando não se tem dados sobre a história social e cultural dos falantes. A partir daí viu-se duas formas básicas de ver essa correlação: a) aditiva, onde primeiro se esgota todas as considerações de ordem interna, e só então dá-se atenção a fatores externos; ou b) integrativa, onde a variação sincrônica é vista como correlacionada a aspectos da estrutura social, sendo um ponto essencial da investigação a convergência de elementos internos e externos.
7.      A mudança emerge da heterogeneidade
A percepção da relevância do contato linguístico para a mudança é relativamente antiga e desde o início do século XX temor a distinção estabelecida em três tipos:
a.       Substrato: a língua que uma população utiliza é abandonada e substituída por outra a partir de um processo histórico de invasão e conquista territorial.
b.      Superestrato: uma língua é introduzida na área de outra, não é substituída, mas com o tempo uma delas vem a desaparecer.
c.       Adstrato: há uma língua falada em território que outra é adotada como referência.

8.      Causas ou condições?
A língua não está submetida ao universo da necessidade (de leis e relações cegas e automáticas), mas ao universo da possibilidade. Assim, não se fala em causas necessárias, mas em condições possíveis de mudança. Já que a mudança linguística está no domínio das opções, incluindo a opção zero (não mudar). Isso porque a língua se encontra num caldo de possibilidades linguísticas que vão ocorrer ou não dependendo de um intrincado processo de preferências sociais contingentes.
9.      Mudança linguística: progresso ou degeneração?
Diante do que foi visto podemos pensar a mudança linguística também como algo positivo, que pode ser vista como uma simplificação que deixa a língua “mais prática”, e não unicamente com a perspectiva negativa, onde ela representa o empobrecimento e a degeneração da língua. Ao longo da História a opinião geral tenderá para um lado ou para outro dependendo da cosmovisão vigente. Por exemplo, no século XVIII o Romantismo Alemão assumia a mudança linguística como algo negativo, graças ao seu nacionalismo; enquanto que no século XIX temos Otto Jespersen publicando o livro Progress in Language defendendo a mudança como evolução e progresso.
Os linguistas atuais adotam uma postura diversa da deles, pois entendem que o cientista deve se abster de valorações e não atribuir evolução ou degeneração, mas ater-se a entender os processos graduais e coerentes da mudança, já que o sistema linguístico se basta a si mesmos em cada momento sincrônico, mantendo um equilíbrio solidário entre as suas partes. Os estudos da área mostram que se altera a configuração do sistema, mas nunca a realidade sistêmica da língua.
10.  A mudança é, então, teleológica?
A escola de Praga elabora entre outros trabalhos os fundamentos da fonologia (nas décadas de 1920 e 1930), mais precisamente os princípios da fonologia histórica. Nessa perspectiva, a mudança não apensa remodelaria continuamente o sistema como teria também a finalidade de corrigir situações de desequilíbrio, deste modo a mudança passa a ter um caráter teleológico, ou seja, tem finalidade, está orientada no sentido de cumprir uma função, atingir um objetivo.
Entre os gerativistas, linha teórica fundada por Noam Chomsky fundada na década de 1950, a mudança tem um caráter terapêutico, mas ele se vale de outras bases para justificá-la, de modo que ela se dá não sob pressões de ordem comunicativa, mas sob restrições de bases biológicas.
11.  Uma avaliação das hipóteses teleológicas
Embora as hipóteses apresentadas pareçam satisfatórias elas são insuficientes tanto no âmbito empírico quanto teórico, uma vez que não temos como justificar situações consideradas anormais sem terem sido corrigidas (algo que acontece). Também, com base nas línguas conhecidas, não temos exemplares de línguas malsucedidas para estabelecer parâmetros do que seria as bem-sucedidas: nenhuma língua desapareceu por defeitos internos, não há línguas aberrantes ou abortos linguísticos.
A linguística histórica segue avançando como toda a ciência, mas possui postulados bem estabelecidos, sendo o principal deles que as línguas mudam e que a mudança é contínua, lenta, gradual e relativamente regular.

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