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O mito acerca da língua dos
índios ser muito rudimentar precisa ser melhor definido para ser refutado. Em
primeiro lugar, o critério que determina o que é ou não uma língua não é de
natureza estritamente linguística, pauta-se também em fatores históricos, políticos e
econômicos. No Brasil a língua dos índios sempre gozou desse status. no entanto, é preciso dizer que os índios não falam uma única língua, elas são mais de 180, faladas por diferentes comunidades
indígenas.
É importante ressaltar que não
existe língua natural (que não foi criada artificialmente) que seja rudimentar, todas as línguas naturais são
complexas. Cada língua pode parecer mais simples ou mais complexas em
determinados aspectos se comparada a outras. As várias línguas indígenas apresenta complexidade num rico sistema de sons; rico sistema de formação das
palavras; diversas maneiras para combinar palavras para a formação de frases; e
diferentes maneiras de significar e estruturar as palavras para obter diversos
efeitos de sentido
.
Além de serem línguas naturais
são também línguas vivas, a exemplo do que acontece com o Tupi (a língua indígena com
mais falantes do Brasil). O Tupi Antigo que era falado pelos índios nos idos de
1500 foi registrado por José de Anchieta na "Arte da gramatica lingoa mais
usada na costa do Brasil”. Tão logo começou a colonização, a miscigenação e a
ampla interação entre índios e portugueses, o Tupi sofreu fortes influências do
Português e transformou-se na Língua Geral (dividida em língua geral setentrional
e meridional).
Devido aos ideias iluministas, no século XVIII, o marquês de Pombal proibiu o uso da Língua Geral no Brasil. A extinção no litoral acabou por acontecer, mas se manteve a Língua Geral de manteve viva através dos índios que viviam em regiões interioranas do país, particularmente na região
amazônica. Com o tempo e uso a Língua Geral transformou-se em Tupi Moderno - também chamado de Inheegatu.
No texto base para esse trabalho
são citados vários exemplos de como línguas indígenas podem ser mais complexas
que o português quanto a aspectos específicos. Aqui gostaríamos de registrar um
exemplo que achamos interessante a respeitos dos pronomes no Tupi.
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Tupi Antigo
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Primeira série
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Segunda série
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ixé
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-eu
|
xe
|
-eu
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endé
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-tu
|
nde ou ne
|
-tu
|
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a’e
|
-ele, ela
|
i
|
-ele,ela
|
|
oré
|
-nós (exclusivo)
|
oré
|
-nós (exclusivo)
|
|
îandé
|
-nós (inclusivo)
|
îandé
|
-nós (inclusivo)
|
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peë
|
-vós
|
pe
|
-vós
|
|
a’e
|
-eles, elas
|
i
|
-eles, elas
|
|
asé
|
-a gente; nós todos
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Tupi Moderno (Inheengatu)
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Primeira série
|
Segunda série
|
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|
ixé
|
-eu
|
Se
|
-eu
|
|
indé
|
-tu; você
|
ne
|
-tu; você
|
|
aé
|
-ele, ela
|
i
|
-ele, ela
|
|
iandé
|
-nós
|
iané
|
-nós
|
|
penhë
|
-vós; vocês
|
pe
|
-vós, vocês
|
|
aintá (ou ta)
|
-eles, elas
|
aintá (ou ta)
|
-eles, elas
|
Como vemos nas tabelas, acima num
primeiro momento de registro, as demandas por demarcações sociais de status e
pertencimento eram muito relevantes na cultura Tupi, apresentando uma variedade
de pronomes para se usar em grupo (nós inclusivo, nós exclusivo, nós todos); e
também a distinção entre os pronomes que devem ser usados com adjetivos de
primeira e segunda série. Na modernidade essas demandas já não se apresentam,
levando a uma redução do número de pronomes presente na língua.
Como vemos, as línguas indígenas são tão complexas como qualquer outra, refletindo sua
história e sua cultura. E mitos como esses se difundem, muitas vezes mais por crenças culturais a respeito de determinados grupos do que por de fato terem sido feito leituras e estudos sobre a questão. Há outro texto aqui no blog no qual falo a respeito do processo de mudanças de uma língua, onde falo de modo geral, se me referir a uma língua específica. Vale a pena conferir clicando aqui.
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