
Sempre amei praia. Eu tinha 32 dias de vida quando tomei meu primeiro banho de mar. Cresci passando todos os períodos de férias na casa de praia com os meus avós maternos. A casa era de frente para o mar e isso permitia que eu passe o dia todo ou tomando banho de mar ou brincando na areia, pois minha avó colocava a cadeira na varanda e podia me observar de longe.
Uma das coisas que mais gostava de fazer era castelos. A areia da praia que frequentávamos tinha uma ótima textura para isso, e já bem pequena entendia o mínimo sobre ciclos da maré, o que me permitia escolher o melhor lugar para a construção.
Quando eu terminava um castelo apreciava-o por um tempo, mas sabia que já já a maré o alcançaria e ele seria destruído. Eu ficava assistindo cair parte por parte e depois ia nadar. Quando a maré estava secando e a maré alta só seria a noite, eu construía um castelo mais caprichado, porque sabia que ele duraria mais tempo, mais pessoas iam ver, e de noite eu podia olhar da janela o castelo iluminado pela luz da lua.
Mas, você bem deve saber, construir castelos de areia requer muita resiliência. Havia dias que o vento estava tão forte que não conseguia terminá-lo, porque a areia ficava batendo no rosto e machucava. Nesse caso, eu desistia do castelo e partia para outra brincadeira.
Às vezes, vinha uma criança maior e chutava o castelo destruindo todo o meu trabalho. Era revoltante, mas eu sempre podia chamar um adulto que iria brigar com ela. Devo confessar que já joguei bolinhas bem sólidas de areia com toda a minha raiva (e passei impune, afinal a culpada era ela que gerou tamanho prejuízo). Era frustrante, mas depois do devido ajuste de contas eu simplesmente recomeçava.
No entanto, a situação que mais me doía era quando eu não conseguia terminar o castelo; seja porque era lua cheia e a maré batia mais alto, seja porque perdi muito tempo catando conchinha e a maré já veio subindo... O mais difícil era ver a água batendo no castelo inacabado e eu acelerando o ritmo, colocando mais e mais areia, cavando um foço, fazendo barreira, pedindo ajuda de um adulto para fazermos rápido... E mesmo assim... TCHUÁ! Vinha uma onda um pouco maior que as outras e levava todo o castelo embora, deixado apenas um morrinho molhado que em nada se assemelhava com um castelo.
2020 está sendo como uma grande onda, que não esperou você concluir muitos trabalhos antes de sair arrasando tudo. Muitos de nós estamos frustrados, tristes, doentes. Muitos planos que mal haviam começados tiveram que ser interrompidos. Ou ainda, muitos outros que vinhamos tentando reerguer fora de vez por água abaixo.
Escrevo esse texto hoje mesmo (Quinta-feira Santa, 09 de abril). Estou vivendo essa Quaresma de um modo muito diferente. Vi muitos castelos de areia desmoronarem na minha vida. E confesso que, algumas vezes, a sensação que tenho é que tudo não passa de um grande castelo de areia.
Em 2020 fazem 10 anos que entrei para a Igreja. Faz 10 anos que há em mim uma alegria que nada tira. Pois eu descobri que, de fato, meus castelos de areia se perderam, mas que não é meu só o castelo, é meu também o mar, e a lua e o vento. É meu as conchas, e as pedras e os coqueiros. É meu os passarinhos voando na orla, é minha a chuva fina que cai na areia, é minha a maria-farinha que se esconde por entre as salsas da praia.
Se eu olho só para o castelo - quanto perdi! Mas se eu olho em volta... ah! Respiro fundo e encho o peito, porque eu não perdi nada.

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