Hamlet e o poder da literatura

Ficheiro:Pedro Américo - Visão de Hamlet 2.jpg – Wikipédia, a ...

O texto que se segue é um ensaio escrito para a disciplina Clássicos da Literatura Medieval e Moderna.

Prólogo

O ano era 2001 e todos estavam em polvorosa com o início do século XXI – o século da tecnologia. Agora tínhamos os computadores, a internet e um mundo globalizado. Mas para quem vivia numa cidadezinha no interior do Rio Grande do Norte a tecnologia não se fazia presente na vida: tínhamos televisões em nossas casas, muitas vezes com parabólica porque o sinal aberto não funcionava direito e tínhamos o rádio que pegava quatro estações (exceto se chovesse, nesse caso teríamos uma).
Era aí que eu vivia, e tinha então 14 anos. Os livros, as letras sempre me fascinaram. Lembro que muito pequena já brincava de escrever e fingia que sabia ler tudo. Aprendi a ler tão logo tive oportunidade e tinha olhos de lince para livros na casa das pessoas a fim de pedi-los emprestado, já que em casa tinha muito poucas opções.
Em 2001 eu também estava animada com o novo século, mas não pelos mesmos motivos que mostravam as reportagens da televisão; eu que vivia em uma cidade sem bibliotecas, livrarias ou mesmo papelarias ia ter acesso a uma banca de revistas, na qual, para a minha felicidade, havia também alguns livros para vender.
Assim que a banca inaugurou fui com a minha mãe e irmã saber da novidade. Na banca do Bastinho havia todo tipo de revista, sorvete Kibon, diversos confeitos, algumas marcas de cigarro e muitas outras coisas, no entanto o que me chamou minha atenção foi um aramado com livros pocket da Martin Claret (e a revista Toda Teen com um galã adolescente na capa, devo confessar). Minha mãe consentiu que eu e minha irmã escolhêssemos cada uma um livro ou revista – só um apenas. E depois de muito considerar voltamos para casa eu com Hamlet de Shakespeare e ela com o Auto da barca do inferno de Gil Vicente.



Minha história com Hamlet

O presente ensaio tem por objetivo comentar a peça Hamlet de Shakespeare articulando a experiência pessoal de leitura com referências outras. Desde o início preciso deixar claro que as notas pessoais dessa escrita irão se destacar, pois essa história esteve desde muitos misturada com a minha, não podendo falar dela sem grande carga afetiva. Farei o esforço de que não seja um texto autocentrado, mas que procure articular o impacto que Hamlet teve em Tainá com as possibilidades da literatura à medida que avança na compreensão desta que é uma das obras mais importantes do Ocidente.

Primeira leitura: Tainá adolescente (2001)
O primeiro contato que tive com um cânone da literatura foi com Hamlet de Shakespeare o qual não fazia ideia da importância. Tive a oportunidade de ler sem, de fato, saber nada sobre a história ou o autor. Li o breve resumo na quarta capa e fiquei interessada.
Ao começar a leitura, a primeira dificuldade foi o fato de ser o texto uma peça, coisa que até começar a lê-lo não sabia. Na verdade, não sabia que as peças tinham texto e não conhecia a convenção de como grafá-las. No entanto, depois desse estranhamento inicial percebi que o texto seria apresentado a partir de falas e naquela edição em específico apontada por travessões, assim, segui a leitura.
Em seguida veio a segunda dificuldade: a linguagem se utilizava de muitas palavras que não conhecia e estruturas frasais que eu não tinha familiaridade. Até mesmo quando entendia minimamente o texto, não ficava segura de ter entendido seu conteúdo. Essa foi uma grande barreira que por motivos que não sei dizer não me desmotivou. Por um tempo que não sei definir minha ocupação era aquela história, gastava tardes lendo-a e consultando o dicionário. Até que um dia cheguei ao fim e a sequência de mortes advinda de ações frenéticas no seu desfecho me deixou tão impactada que decidi entender melhor aquela história – ao terminar a primeira leitura comecei a segunda.
E assim, Shakespeare alcançou o posto de autor favorito. Para mim foi marcante como ele conseguiu criar personagens tão ricos e complexos numa trama envolvente, onde a cada novo ato me deparava com eventos mais e mais surpreendentes. Como um casal de apaixonado, à princípio sem qualquer impedimento para ficar juntos, permite uma série de mal-entendidos e coisas não ditas os transforme em pessoas distantes, ressentidas e desgraçadas? Como Ofélia e Hamlet não ficam juntos no final e eu sequer me preocupo com isso? Como um homem do século XVI pode me por mais preocupada com as obrigações morais e de estado de um príncipe do que com o grande romance trágico? Por que Ofélia não foi forte como Hamlet e suportou sua dor com valentia fazendo o que era preciso ao invés de, de fato, ficar louca?
Entrei no mundo das belas letras com o pé direito, aprendendo que a literatura não necessariamente nos traz respostas, mas com certeza nos traz perguntas, com as quais, muitas vezes, temos que conviver por anos até encontrar um modo de respondê-las.

Segunda leitura: Tainá estudante de Psicologia (2008)
Eu estava realizando o sonho de fazer faculdade em uma instituição federal; me dedicava com muito afinco aos estudos e participava de todo tipo de ação que a universidade oferecia. Em pouco tempo descobri o prestígio de Shakespeare como escritor e a importância de obras como Hamlet. Senti vontade de voltar a história e ver quais seriam as minhas impressões agora que conseguiria entender o texto com facilidade e teria muito mais bagagem para interpretá-la.
Fiquei encantada! A cada página tinha vontade de grifar uma frase marcante; fiquei fascinada com os diálogos rápidos, com a exposição de ideias complexas de maneira tão natural e com os personagens que mesmo tendo contato através de um texto teatral eram tão complexos. A experiência foi tão boa que usei Hamlet como ilustração de um trabalho que fiz na faculdade sobre ‘A morte e a relação do home com a finitude’, e na apresentação declamei o trecho mais famoso: “ser ou não ser, eis a questão (...)”
Nesse segundo momento de contato com essa história me marcou a riqueza com que Shakespeare aborda temas tão complexos e existenciais. Me solidarizei e me identifiquei com o Hamlet que busca encontrar sentido numa existência marcada por sofrimentos e dificuldades; mesmo se sentindo interiormente destruído ele encontra forças para fazer o que é certo, sem se preocupar com aquilo que perderá ao fazer valer aquilo em que acredita.
Também eu, na época, andava as voltas com questões filosóficas, considerando a existência de Deus, o propósito da vida e construção da minha própria conduta moral, e com Hamlet me questionava: viver só por medo de morrer? É só isso a existência? E que postura assumir? Lutar diante das injustiças ou se recolher resignado? Hamlet chegou a resposta para a vida dele e me inspirou a ter coragem para enfrentar esse árduo terreno até que encontrasse as minhas próprias.

Terceira leitura: Tainá em mudança (2016)
O terceiro momento em que li Hamlet eu estava me sentindo confusa tanto quanto ele no início da peça. Hamlet precisa decidir se tomará sobre si a incumbência dada pelo fantasma de seu pai, e essa é para ele uma questão difícil, mesmo ele estando totalmente insatisfeito com o casamento da mãe com o tio. Ele sente necessidade de parâmetros sólidos e cria a estratagema da peça encenada para o rei a fim de verificar a sua reação.
Eu estava completamente insatisfeita com o meu trabalho e com a minha profissão. Sentia um forte desejo de mudar minha vida e de dar uma reviravolta, mas ao mesmo tempo me sentia travada, bloqueada por coisas que nem sabia dizer o que eram. Então comecei a me voltar cada vez mais para os livros, busquei na arte, assim como Hamlet, a resposta para os meus dilemas.
Foi aí que percebi pela primeira vez a forte relação que tinha com os livros, com a literatura e com Hamlet em particular. Dei-me conta do quanto as palavras de Shakespeare tinham sido conselhos que pus em prática, o quanto o fim trágico dos personagens tinha me ensinado, percebi o quanto os livros eram um eixo sólido que perpassava toda a minha história.
Assim como toda a ação dramática gira em torno do Hamlet toda a minha vida precisava girar em torno de mim mesma. Minhas escolhas precisavam ter como eixo central minhas vontades, razões aptidões e interesses; precisava parar se ser uma espectadora que torce pelo melhor desfecho e passar a atuar e maquinar o desfecho mais conveniente.
E de novo a questão me interpelou: ser ou não ser? Sim, era importante refletir, se recolher, estar só, como tantas vezes Hamlet fica no palco, para que haja o silêncio e a resposta seja autêntica. Mas não poderia me esquecer que “a reflexão faz todos nós covardes” e não poderia me escusar de agir por ainda estar refletindo. “O que é um homem cujo o principal uso e melhor aproveitamento é comer e dormir? ”, pergunta Hamlet ironicamente, e eu respondo com sinceridade que quero ser útil, que irei agir, pois cedo ou tarde o destino que me espera é o mesmo de Yorick.
A partir dessa e outras reflexões fui encontrando respostas. A literatura me fez quem sou. A literatura me abriu possibilidades. A literatura foi por diversas vezes o bote salva-vidas que me conduziu do mar revolto a praias seguras. Decidi que desse dia em diante minha relação com ela seria cada vez mais estreita e que faria o possível para que outras pessoas encontrassem também na literatura caminhos existenciais – agora, seria professora.

Quarta leitura: Tainá estudante de Letras (2019)
            Sempre que se ouve falar em licenciatura no Brasil estaremos ouvindo sobre ganhar pouco e não ser respeitado. Os aspectos negativos da vida do professor estão sempre sendo enfatizados. No entanto, isso nem sequer chegou a ser uma questão para mim depois que tomei minha decisão. A cada nova aula ou experiência dentro do curso de Letras Português confirmo que esse é o caminho certo para mim; me fascino a cada nova aprendizagem e penso que poderia seguir qualquer caminho (linguística, latim, produção textual, literatura comparada, entre muitas outras possibilidades).
Os aspectos negativos tão alardeados estão lá, porém estão também todas as experiências significativas. E uma delas foi poder lançar sobre um dos meus livros favoritos um olhar aprofundado: ler textos teóricos, assistir aula sobre ele, discutir com colegas, escrever sobre o assunto... tudo isso são oportunidades que me enche de alegria, embora não deixem de ser também desgastantes, já que obviamente quero fazer o melhor possível.
Ter aula sobre uma história que está a tanto tempo comigo foi muito produtivo porque pude apreciar pontos de vista diferentes e tive acesso a uma série de livros teóricos que me possibilitaram ampliar a minha visão. Tentarei na próxima sessão deste trabalho articular os novos conhecimentos adquiridos com a leitura que faço da obra.



Hamlet: uma grande história ocidental

            O estado da arte da obra de Shakespeare é extenso, e mesmo que restrinjamos a apenas uma obra (Hamlet) ainda assim não chegaremos a um trabalho menor do que uma tese de mestrado. A seguir alguns tópicos de análise crítica, a partir da visão de Harold Bloom e da Teoria dos Três Gêneros apresentada em Anatol Rosenfeld.

O texto
Conforme a teoria dos Três Gêneros as obras podem ser agrupadas em três grandes grupos: a Lírica, o Épico e a Dramática. Hamlet é uma peça e por tanto pertencente ao gênero dramático; no entanto, seu texto não é puro, contendo vários momentos em que assume traços líricos. Mesmo não sendo uma obra pura, o fato de ter traços acentuados de outro gênero não descaracteriza Hamlet como texto dramático; mesmo porque uma obra sofre muitas outras influências além do gênero, tais como, visão de mundo do autor, correntes históricas do período, tema da obra, etc. (ROSENFELD, 2002)
Mas não é só a hibridização que faz de Hamlet um texto particular, sua extensão é notável para uma peça, sendo muito poucas vezes encenadas na íntegra. Especula-se, inclusive, que mesmo o próprio Shakespeare tenha feito versões editadas dela para montagens (BLOOM, 2001). Isso se torna digno de nota pois essa parece ter sido uma peça escrita para ser lida e encenada, deferentemente do que é usual, pois o texto dramático é omisso, precisando do palco para se tornar completo, já que não possui moldura narrativa, contexto ou descrição de características. (ROSENFELD, 2002)
Deste modo o teatro e o público se complementam: o teatro depende do público para existir, mas é encenado como se ele não estivesse ali. Porém, em Hamlet é comum haver apartes de modo que o público se sente incluído no drama, compondo assim a Dramática lírico épica, pois carrega no gênero dramático traços da Lírica (texto de grande intensidade expressiva) e do Épico (o destino dos personagens está dado). (ROSENFELD, 2002)
Além das particularidades existentes na própria estrutura do texto é inegável a riqueza semântica da obra, a qual poderíamos escolher incontáveis pontos de análise crítica. Por uma delimitação de tempo e de proporção dos objetivos a que se submetem esse presente trabalho, finalizou-o dizendo com BLOOM (2001) que a obra de Shakespeare, da qual Hamlet é o grande estandarte, guarda características de amor, ordem e eternidade, de modo que ao lermos Shakespeare ele “nos faz teatrais”, já que ele “nos lê mais do que lemos ele”.
Hamlet: a história que permanece

Shakespeare foi um homem notável, um gênio literário: deu as bases do inglês moderno, revolucionou a maneira como os personagens são apresentados (com cognição e personalidade) e com isso, segundo BLOOM (2001) criou novas formas de consciência, sendo o responsável por como nós, homens modernos, enxergamos a nós mesmos.
Eu partilho da visão de que o maior legado de uma grande obra não é a escrita, os personagens, a trama... tudo isso é importante, mas é preciso mais. Os verdadeiramente grandes desenvolvem em suas obras a capacidade de por séculos emocionar pessoas, gerar identificação e ilustrar o poder transformador e edificante que a arte tem, e do que a literatura pode fazer pelas pessoas.
Como disse BLOOM (2001), “somos guiados por impulsos que não podemos controlar e por livros aos quais não podemos resistir”. Fico feliz por Hamlet ter sido para mim um livro irresistível – me atraído e se entrelaçado a minha história, pois assim sou o exemplo vivo da universalidade da literatura uma vez que os escritos de um homem da corte inglesa do século XVI interessaram uma garota do interior do Rio Grande do Norte no ano de 2001.



Referências Bibliográficas

SHAKESPARE, William. Hamlet. Porto Alegre, RS: LP&M POCKET, 2019.
BLOOM, Harold. Shakespeare: a invenção do humano. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
ROSENFELD, Anatol. O teatro épico. São Paulo: Perspectiva, 2002. 4. ed.

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