
O texto que se segue é um ensaio escrito para a disciplina Clássicos da Literatura Medieval e Moderna.
Prólogo
O
ano era 2001 e todos estavam em polvorosa com o início do século XXI – o século
da tecnologia. Agora tínhamos os computadores, a internet e um mundo globalizado.
Mas para quem vivia numa cidadezinha no interior do Rio Grande do Norte a
tecnologia não se fazia presente na vida: tínhamos televisões em nossas casas,
muitas vezes com parabólica porque o sinal aberto não funcionava direito e
tínhamos o rádio que pegava quatro estações (exceto se chovesse, nesse caso
teríamos uma).
Era
aí que eu vivia, e tinha então 14 anos. Os livros, as letras sempre me
fascinaram. Lembro que muito pequena já brincava de escrever e fingia que sabia
ler tudo. Aprendi a ler tão logo tive oportunidade e tinha olhos de lince para
livros na casa das pessoas a fim de pedi-los emprestado, já que em casa tinha
muito poucas opções.
Em
2001 eu também estava animada com o novo século, mas não pelos mesmos motivos
que mostravam as reportagens da televisão; eu que vivia em uma cidade sem
bibliotecas, livrarias ou mesmo papelarias ia ter acesso a uma banca de
revistas, na qual, para a minha felicidade, havia também alguns livros para
vender.
Assim
que a banca inaugurou fui com a minha mãe e irmã saber da novidade. Na banca do
Bastinho havia todo tipo de revista, sorvete Kibon, diversos confeitos, algumas
marcas de cigarro e muitas outras coisas, no entanto o que me chamou minha
atenção foi um aramado com livros pocket da Martin Claret (e a revista Toda
Teen com um galã adolescente na capa, devo confessar). Minha mãe consentiu que
eu e minha irmã escolhêssemos cada uma um livro ou revista – só um apenas. E depois
de muito considerar voltamos para casa eu com Hamlet de Shakespeare e ela com o
Auto da barca do inferno de Gil Vicente.
Minha história com
Hamlet
O
presente ensaio tem por objetivo comentar a peça Hamlet de Shakespeare
articulando a experiência pessoal de leitura com referências outras. Desde o
início preciso deixar claro que as notas pessoais dessa escrita irão se
destacar, pois essa história esteve desde muitos misturada com a minha, não
podendo falar dela sem grande carga afetiva. Farei o esforço de que não seja um
texto autocentrado, mas que procure articular o impacto que Hamlet teve em
Tainá com as possibilidades da literatura à medida que avança na compreensão
desta que é uma das obras mais importantes do Ocidente.
Primeira
leitura: Tainá adolescente (2001)
O
primeiro contato que tive com um cânone da literatura foi com Hamlet de
Shakespeare o qual não fazia ideia da importância. Tive a oportunidade de ler
sem, de fato, saber nada sobre a história ou o autor. Li o breve resumo na
quarta capa e fiquei interessada.
Ao
começar a leitura, a primeira dificuldade foi o fato de ser o texto uma peça,
coisa que até começar a lê-lo não sabia. Na verdade, não sabia que as peças
tinham texto e não conhecia a convenção de como grafá-las. No entanto, depois
desse estranhamento inicial percebi que o texto seria apresentado a partir de
falas e naquela edição em específico apontada por travessões, assim, segui a
leitura.
Em
seguida veio a segunda dificuldade: a linguagem se utilizava de muitas palavras
que não conhecia e estruturas frasais que eu não tinha familiaridade. Até mesmo
quando entendia minimamente o texto, não ficava segura de ter entendido seu
conteúdo. Essa foi uma grande barreira que por motivos que não sei dizer não me
desmotivou. Por um tempo que não sei definir minha ocupação era aquela
história, gastava tardes lendo-a e consultando o dicionário. Até que um dia
cheguei ao fim e a sequência de mortes advinda de ações frenéticas no seu
desfecho me deixou tão impactada que decidi entender melhor aquela história – ao
terminar a primeira leitura comecei a segunda.
E
assim, Shakespeare alcançou o posto de autor favorito. Para mim foi marcante
como ele conseguiu criar personagens tão ricos e complexos numa trama
envolvente, onde a cada novo ato me deparava com eventos mais e mais
surpreendentes. Como um casal de apaixonado, à princípio sem qualquer
impedimento para ficar juntos, permite uma série de mal-entendidos e coisas não
ditas os transforme em pessoas distantes, ressentidas e desgraçadas? Como
Ofélia e Hamlet não ficam juntos no final e eu sequer me preocupo com isso?
Como um homem do século XVI pode me por mais preocupada com as obrigações
morais e de estado de um príncipe do que com o grande romance trágico? Por que
Ofélia não foi forte como Hamlet e suportou sua dor com valentia fazendo o que
era preciso ao invés de, de fato, ficar louca?
Entrei
no mundo das belas letras com o pé direito, aprendendo que a literatura não
necessariamente nos traz respostas, mas com certeza nos traz perguntas, com as
quais, muitas vezes, temos que conviver por anos até encontrar um modo de respondê-las.
Segunda
leitura: Tainá estudante de Psicologia (2008)
Eu
estava realizando o sonho de fazer faculdade em uma instituição federal; me
dedicava com muito afinco aos estudos e participava de todo tipo de ação que a
universidade oferecia. Em pouco tempo descobri o prestígio de Shakespeare como
escritor e a importância de obras como Hamlet. Senti vontade de voltar a
história e ver quais seriam as minhas impressões agora que conseguiria entender
o texto com facilidade e teria muito mais bagagem para interpretá-la.
Fiquei
encantada! A cada página tinha vontade de grifar uma frase marcante; fiquei
fascinada com os diálogos rápidos, com a exposição de ideias complexas de
maneira tão natural e com os personagens que mesmo tendo contato através de um
texto teatral eram tão complexos. A experiência foi tão boa que usei Hamlet
como ilustração de um trabalho que fiz na faculdade sobre ‘A morte e a relação
do home com a finitude’, e na apresentação declamei o trecho mais famoso: “ser
ou não ser, eis a questão (...)”
Nesse
segundo momento de contato com essa história me marcou a riqueza com que Shakespeare
aborda temas tão complexos e existenciais. Me solidarizei e me identifiquei com
o Hamlet que busca encontrar sentido numa existência marcada por sofrimentos e
dificuldades; mesmo se sentindo interiormente destruído ele encontra forças
para fazer o que é certo, sem se preocupar com aquilo que perderá ao fazer valer
aquilo em que acredita.
Também
eu, na época, andava as voltas com questões filosóficas, considerando a
existência de Deus, o propósito da vida e construção da minha própria conduta
moral, e com Hamlet me questionava: viver só por medo de morrer? É só isso a
existência? E que postura assumir? Lutar diante das injustiças ou se recolher
resignado? Hamlet chegou a resposta para a vida dele e me inspirou a ter
coragem para enfrentar esse árduo terreno até que encontrasse as minhas
próprias.
Terceira
leitura: Tainá em mudança (2016)
O
terceiro momento em que li Hamlet eu estava me sentindo confusa tanto quanto
ele no início da peça. Hamlet precisa decidir se tomará sobre si a incumbência
dada pelo fantasma de seu pai, e essa é para ele uma questão difícil, mesmo ele
estando totalmente insatisfeito com o casamento da mãe com o tio. Ele sente
necessidade de parâmetros sólidos e cria a estratagema da peça encenada para o
rei a fim de verificar a sua reação.
Eu
estava completamente insatisfeita com o meu trabalho e com a minha profissão.
Sentia um forte desejo de mudar minha vida e de dar uma reviravolta, mas ao
mesmo tempo me sentia travada, bloqueada por coisas que nem sabia dizer o que
eram. Então comecei a me voltar cada vez mais para os livros, busquei na arte,
assim como Hamlet, a resposta para os meus dilemas.
Foi
aí que percebi pela primeira vez a forte relação que tinha com os livros, com a
literatura e com Hamlet em particular. Dei-me conta do quanto as palavras de
Shakespeare tinham sido conselhos que pus em prática, o quanto o fim trágico
dos personagens tinha me ensinado, percebi o quanto os livros eram um eixo
sólido que perpassava toda a minha história.
Assim
como toda a ação dramática gira em torno do Hamlet toda a minha vida precisava
girar em torno de mim mesma. Minhas escolhas precisavam ter como eixo central
minhas vontades, razões aptidões e interesses; precisava parar se ser uma
espectadora que torce pelo melhor desfecho e passar a atuar e maquinar o
desfecho mais conveniente.
E
de novo a questão me interpelou: ser ou não ser? Sim, era importante refletir,
se recolher, estar só, como tantas vezes Hamlet fica no palco, para que haja o
silêncio e a resposta seja autêntica. Mas não poderia me esquecer que “a
reflexão faz todos nós covardes” e não poderia me escusar de agir por ainda
estar refletindo. “O que é um homem cujo o principal uso e melhor
aproveitamento é comer e dormir? ”, pergunta Hamlet ironicamente, e eu respondo
com sinceridade que quero ser útil, que irei agir, pois cedo ou tarde o destino
que me espera é o mesmo de Yorick.
A
partir dessa e outras reflexões fui encontrando respostas. A literatura me fez
quem sou. A literatura me abriu possibilidades. A literatura foi por diversas
vezes o bote salva-vidas que me conduziu do mar revolto a praias seguras.
Decidi que desse dia em diante minha relação com ela seria cada vez mais
estreita e que faria o possível para que outras pessoas encontrassem também na
literatura caminhos existenciais – agora, seria professora.
Quarta
leitura: Tainá estudante de Letras (2019)
Sempre que se ouve falar em
licenciatura no Brasil estaremos ouvindo sobre ganhar pouco e não ser
respeitado. Os aspectos negativos da vida do professor estão sempre sendo
enfatizados. No entanto, isso nem sequer chegou a ser uma questão para mim
depois que tomei minha decisão. A cada nova aula ou experiência dentro do curso
de Letras Português confirmo que esse é o caminho certo para mim; me fascino a
cada nova aprendizagem e penso que poderia seguir qualquer caminho
(linguística, latim, produção textual, literatura comparada, entre muitas
outras possibilidades).
Os
aspectos negativos tão alardeados estão lá, porém estão também todas as
experiências significativas. E uma delas foi poder lançar sobre um dos meus
livros favoritos um olhar aprofundado: ler textos teóricos, assistir aula sobre
ele, discutir com colegas, escrever sobre o assunto... tudo isso são
oportunidades que me enche de alegria, embora não deixem de ser também
desgastantes, já que obviamente quero fazer o melhor possível.
Ter
aula sobre uma história que está a tanto tempo comigo foi muito produtivo
porque pude apreciar pontos de vista diferentes e tive acesso a uma série de
livros teóricos que me possibilitaram ampliar a minha visão. Tentarei na
próxima sessão deste trabalho articular os novos conhecimentos adquiridos com a
leitura que faço da obra.
Hamlet: uma grande
história ocidental
O estado da arte da obra de
Shakespeare é extenso, e mesmo que restrinjamos a apenas uma obra (Hamlet)
ainda assim não chegaremos a um trabalho menor do que uma tese de mestrado. A
seguir alguns tópicos de análise crítica, a partir da visão de Harold Bloom e
da Teoria dos Três Gêneros apresentada em Anatol Rosenfeld.
O
texto
Conforme
a teoria dos Três Gêneros as obras podem ser agrupadas em três grandes grupos:
a Lírica, o Épico e a Dramática. Hamlet é uma peça e por tanto pertencente ao
gênero dramático; no entanto, seu texto não é puro, contendo vários momentos em
que assume traços líricos. Mesmo não sendo uma obra pura, o fato de ter traços
acentuados de outro gênero não descaracteriza Hamlet como texto dramático;
mesmo porque uma obra sofre muitas outras influências além do gênero, tais
como, visão de mundo do autor, correntes históricas do período, tema da obra,
etc. (ROSENFELD, 2002)
Mas
não é só a hibridização que faz de Hamlet um texto particular, sua extensão é
notável para uma peça, sendo muito poucas vezes encenadas na íntegra.
Especula-se, inclusive, que mesmo o próprio Shakespeare tenha feito versões
editadas dela para montagens (BLOOM, 2001). Isso se torna digno de nota pois
essa parece ter sido uma peça escrita para ser lida e encenada, deferentemente
do que é usual, pois o texto dramático é omisso, precisando do palco para se
tornar completo, já que não possui moldura narrativa, contexto ou descrição de
características. (ROSENFELD, 2002)
Deste
modo o teatro e o público se complementam: o teatro depende do público para
existir, mas é encenado como se ele não estivesse ali. Porém, em Hamlet é comum
haver apartes de modo que o público se sente incluído no drama, compondo assim
a Dramática lírico épica, pois carrega no gênero dramático traços da Lírica
(texto de grande intensidade expressiva) e do Épico (o destino dos personagens
está dado). (ROSENFELD, 2002)
Além
das particularidades existentes na própria estrutura do texto é inegável a
riqueza semântica da obra, a qual poderíamos escolher incontáveis pontos de
análise crítica. Por uma delimitação de tempo e de proporção dos objetivos a
que se submetem esse presente trabalho, finalizou-o dizendo com BLOOM (2001)
que a obra de Shakespeare, da qual Hamlet é o grande estandarte, guarda
características de amor, ordem e eternidade, de modo que ao lermos Shakespeare
ele “nos faz teatrais”, já que ele “nos lê mais do que lemos ele”.
Hamlet: a história
que permanece
Shakespeare
foi um homem notável, um gênio literário: deu as bases do inglês moderno,
revolucionou a maneira como os personagens são apresentados (com cognição e personalidade)
e com isso, segundo BLOOM (2001) criou novas formas de consciência, sendo o
responsável por como nós, homens modernos, enxergamos a nós mesmos.
Eu
partilho da visão de que o maior legado de uma grande obra não é a escrita, os
personagens, a trama... tudo isso é importante, mas é preciso mais. Os
verdadeiramente grandes desenvolvem em suas obras a capacidade de por séculos
emocionar pessoas, gerar identificação e ilustrar o poder transformador e
edificante que a arte tem, e do que a literatura pode fazer pelas pessoas.
Como
disse BLOOM (2001), “somos guiados por impulsos que não podemos controlar e por
livros aos quais não podemos resistir”. Fico feliz por Hamlet ter sido para mim
um livro irresistível – me atraído e se entrelaçado a minha história, pois
assim sou o exemplo vivo da universalidade da literatura uma vez que os
escritos de um homem da corte inglesa do século XVI interessaram uma garota do
interior do Rio Grande do Norte no ano de 2001.
Referências
Bibliográficas
SHAKESPARE, William. Hamlet. Porto Alegre, RS: LP&M
POCKET, 2019.
BLOOM, Harold. Shakespeare: a invenção do humano. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
ROSENFELD, Anatol. O teatro épico. São Paulo: Perspectiva, 2002. 4. ed.
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