Capítulo 2: Riacho azul



Todas as vezes que ía para casa da tia, Estela escolhia o caminho pelo qual passaria pelo Riacho Azul, pois era uma bela paisagem. O riacho tinha muitas pedras lisas e a água passava rasa naquela altura, de modo que Estela subia um pouco o vestido e podia passar sem molha-lo. Ela adorava a sensação dos pés tocando a água fria, e a curva do pé se ajustando às pedras. Era comum na primavera ver passar pequenos peixes, sempre havia passarinhos bebericando na borda do riacho; e o som das folhas das árvores balançando, de água rasa correndo, de aves cantando faziam o caminho agradável e alegravam o coração de Estela.
Até que um belo dia, Estela teve um grande susto. Cruzava o riacho com a cabeça baixa olhando os peixinhos, e ao chegar à margem ouviu uma voz masculina:
- Bom dia!
O sobressalto que deu não pode ser disfarçado. Não era comum pessoas passando por ali, mesmo havendo estrada; menos comum ainda homens distintos, e ainda por cima, à cavalo ornado. Não saiu uma palavra sequer da boca de Estela e o homem pareceu divertisse com isso.
- Desculpe se a assuntei. Estou um pouco perdido. Procuro o castelo Trolliteli, você sabe qual é o caminho?
- O que uma pessoa distinta como o senhor está fazendo por aqui?
- Já disse, me perdi. Falou tentando soar sedutor, mas Estela estava mesmo era assustada e tentava disfarçar a todo custo. Pois lembrem-se: ela vivia sozinha e a região era afastada.
- De fato, isso você já disse. Mas o que veio fazer aqui?
- Estou vendo que não está querendo me dar informação.
O contaste entre o tom divertido e até irônico do rapaz e a fala séria de Estela só aumentavam.
- Por que você quer ir ao castelo Trolliteli?
- Ora, porque eu moro lá.
- Você é criado do rei?
E aqui Estela ouviu a primeira mentira dele.
- Sim. Na verdade, sou mensageiro do príncipe. Preciso o quanto antes chegar até ele e lhe entregar a mensagem.
Estela respirou aliviada. Agora tudo fez sentido.
- A estrada é sinuosa, uma vez que esse caminho é antigo e pouco utilizado, mas se você segui-la, chegará aos fundos do castelo. Depois só será preciso dar a volta.
- Obrigada jovem dama. Qual o seu nome?
Estela rodou nos calcanhares e saiu andando. De costas, disse: - Tenha um bom dia!
E se foi com o passo apressado e o coração a mil. Mas a frente, se escondeu atrás de uma árvore e se certificou de que o rapaz seguia seu próprio caminho. Aliviada, seguiu para casa, e esse evento que naquele momento pareceu tão extraordinário foi esquecido com o passar dos dias.



[Amanhã, às 20h, sai o próximo capítulo]

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