Todas as
vezes que ía para casa da tia, Estela escolhia o caminho pelo qual passaria pelo
Riacho Azul, pois era uma bela paisagem. O riacho tinha muitas pedras lisas e a
água passava rasa naquela altura, de modo que Estela subia um pouco o vestido e
podia passar sem molha-lo. Ela adorava a sensação dos pés tocando a água fria, e
a curva do pé se ajustando às pedras. Era comum na primavera ver passar
pequenos peixes, sempre havia passarinhos bebericando na borda do riacho; e o
som das folhas das árvores balançando, de água rasa correndo, de aves cantando
faziam o caminho agradável e alegravam o coração de Estela.
Até que um
belo dia, Estela teve um grande susto. Cruzava o riacho com a cabeça baixa
olhando os peixinhos, e ao chegar à margem ouviu uma voz masculina:
- Bom dia!
O sobressalto
que deu não pode ser disfarçado. Não era comum pessoas passando por ali, mesmo
havendo estrada; menos comum ainda homens distintos, e ainda por cima, à cavalo
ornado. Não saiu uma palavra sequer da boca de Estela e o homem pareceu
divertisse com isso.
- Desculpe se
a assuntei. Estou um pouco perdido. Procuro o castelo Trolliteli, você sabe qual
é o caminho?
- O que uma
pessoa distinta como o senhor está fazendo por aqui?
- Já disse,
me perdi. Falou tentando soar sedutor, mas Estela estava mesmo era assustada e
tentava disfarçar a todo custo. Pois lembrem-se: ela vivia sozinha e a região
era afastada.
- De fato,
isso você já disse. Mas o que veio fazer aqui?
- Estou vendo
que não está querendo me dar informação.
O contaste
entre o tom divertido e até irônico do rapaz e a fala séria de Estela só
aumentavam.
- Por que
você quer ir ao castelo Trolliteli?
- Ora, porque
eu moro lá.
- Você é
criado do rei?
E aqui Estela
ouviu a primeira mentira dele.
- Sim. Na
verdade, sou mensageiro do príncipe. Preciso o quanto antes chegar até ele e
lhe entregar a mensagem.
Estela
respirou aliviada. Agora tudo fez sentido.
- A estrada é
sinuosa, uma vez que esse caminho é antigo e pouco utilizado, mas se você
segui-la, chegará aos fundos do castelo. Depois só será preciso dar a volta.
- Obrigada
jovem dama. Qual o seu nome?
Estela rodou
nos calcanhares e saiu andando. De costas, disse: - Tenha um bom dia!
E se foi com
o passo apressado e o coração a mil. Mas a frente, se escondeu atrás de uma
árvore e se certificou de que o rapaz seguia seu próprio caminho. Aliviada, seguiu para
casa, e esse evento que naquele momento pareceu tão extraordinário foi esquecido
com o passar dos dias.
[Amanhã, às 20h, sai o próximo capítulo]

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