Capítulo 3: Manhãs de verão



Numa bela manhã de verão, quando arrumava o vestido para cruzar o Riacho Azul viu na outra margem o mensageiro do príncipe. Respirou fundo e seguiu o seu caminho com a maior naturalidade que conseguiu. Novamente ele apresentava um ar divertido no rosto, e Estela não sabia se isso era bom o ruim.
- Bom dia moça! Você tem lindos pezinhos.
- Acho muito indelicado da sua parte comentar sobre os pés de uma moça que não conhece!
- Mas eu a conheço! Será que hoje me dignará a dizer seu nome?
- Não desejo entrar em interlocução. A caso está perdido novamente?
- Não, passei aqui já três vezes na esperança de vê-la. Finalmente hoje consegui. Meu nome é Alfredo, muito prazer.
Foi inevitável se sentir lisonjeada. Estela sorriu e desviou o olhar.
- Olha, eu sei o que está se passando. Você tem medo de mim e isso a deixa extremamente encantadora. Mas não precisa ter. Como você já sabe, meu nome é Alfredo, sou mensageiro do príncipe Abelardo. A vi naquele dia por acaso, mas desde então não consigo parar de pensar em você. Gostaria da sua permissão para fazer uso desse caminho sempre que precisar.
- Ora, pergunte ao príncipe, o caminho é dele e não meu.
Ambos riram.
- Por favor... sabe que lhe peço isso porque desejo vê-la.
- Não autorizo nem desautorizo. Como disse, a estrada não é minha. Meu nome é Estela e preciso ir. Adeus!
Rodou mais uma vez nos calcanhares e andou apressada e com as pernas bambas. Mais à frente, se escondeu atrás de uma árvore e viu que ele tinha acabado de dar meia volta, ou seja, ficou observando ela enquanto andava. Estela suspirou, mais porque andou afobadamente do que de apaixonada. Embora, sendo sincera consigo mesma teve que admitir que era um belo rapaz, com um bom emprego, e ela já tinha idade de casar (na próxima primavera faria 18 anos).
Nas próximas vezes em que se viram a conversa foi rápida, mas o afeto entre ambos cada vez crescia mais – ao menos era o que Estela pensava.
Alfredo contava coisas da vida no palácio e aos poucos Estela foi confiando nele, até que sem perceber havia contado tudo sobre si. Falou de Alfredo para a mãe e ela ficou muito contente, pois o que a mãe mais desejava era casar sua filha caçula, para ter uma velhice sossegada, sabendo que todas elas estavam bem. Pois sendo cozinheira, poderia trabalhar até bem velhinha, e as quatro moedas de cobre que era para o sustento de Estela poderiam ser guardadas para quando ela não pudesse mais trabalhar.
Estela e Alfredo agora se viam sempre, e o coração dela já acelerava só de ouvir o riacho, pois sabia que na outra margem ela veria ele a esperá-la. Até que um dia ele não veio mais. Foi pouco antes de começar o inverno, durante todo o inverno ele não apareceu nenhuma só vez.



[Amanhã, às 20h, sai um novo capitulo]

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