Capítulo 4: O inverno




Era uma terça-feira, Estela estava no jardim a cuidar das flores para, como sempre, vendê-las na feira. Era verdade que a variedade era menor por causa do tempo, mas flores valiam mais nessa época, já que só jardineiros habilidosos conseguiam mantê-las vivas. Por sorte, não nevava na região, caso contrário, inverno seria sinônimo de fome.
Era terça-feira e a mãe despontou na estrada. Estela não entendeu nada, já que o duque de Ascriolan só dava duas folgas extras no ano – Natal e Virada de Ano, e não era nenhuma das duas. Dona Verdana vinha afobada para contar a novidade. O duque tinha dado folga a maior parte da criadagem pois passaria uma semana fora. Haveria no reino grande festividade pelo natalício do príncipe Abelardo, com um grande festival de inverno, com competições de arco e flecha, justas, cavalgadas, bailes, apresentações de saltimbancos, menestréis, bardos e muitas outras coisas que a nobreza sabe inventar para passar o tempo.
Talvez, Alfredo estivesse muito ocupado com as solicitações do príncipe e por isso não apareceu - tentou consolar. Estela queria muito acreditar nisso, mas que tantas ocupações poderia haver para um mensageiro se todos os amigos do príncipe estavam com ele?
Os dias se passaram e Estela já havia se conformado que aquela teria sido uma grande ilusão. Ocupava seus dias pensando no seu aniversário que estava próximo e as coisas legais que faria para celebrar a data. O mensageiro da aldeia estava passando mais frequentemente por aquela bela casinha pois amigos e familiares mandavam cartas de felicitações; e as irmãs tinham mandado presentes, conforme a condição de cada uma: um broche, um livro, uma sandália trançada, um laço de fita e um lenço bordado.
Por isso, foi com grande surpresa que um dia Estela se deparou com Alfredo esperando por ela na outra margem do Riacho Azul, como costumava fazer. Sentiu-se feliz e com raiva. Foi até ele, mas não disse nada.
- Você não está nem um pouco menos linda desde a última vez que lhe vi. Disse isso como o mesmo ar de graça de sempre. E dessa vez Estela teve certeza que aquilo era algo que a irritava.
- Como pode aparecer assim depois de tanto tempo e agir como se não fosse nada?
E aqui, ele mentiu para a ela uma segunda vez.
- Queria muito vê-la, mas não pude. O príncipe não me deixou sair de perto dele. Ele sempre precisa do meu auxílio para lembrar os nomes, lugar de origem e título das pessoas. Juro que se pudesse teria vindo.
A justificativa parecia plausível, no entanto algo no canto dos pássaros dizia a ela que Alfredo não era confiável.
- Alfredo, gosto de você e você sabe disso. Mas não sou boba. Não quero mais vê-lo a menos que esteja disposto a assumir compromisso sério. Faço 18 anos daqui a 14 dias. Quero que você vá a minha casa para jantar e conheça a minha família. Coisa que aliás lhe peço a tempos e só ouço desculpas. Estou em idade de casar, e se não é essa a sua intenção, é melhor que você parta e não nos vejamos nunca mais.
Alfredo desviou o olhar e sorriu com malícia.
- Entendo. Fico ofendido de pensar isso de mim, pois sempre pensei só coisas boas a seu respeito. Minha admiração por você diminui diante de postura tão soberba. Você quase me pediu em casamento!
Estela se envergonhou e teve vontade de chorar. Olhou para o céu e respirou fundo. Evitou piscar para que a lágrima não descesse pelo seu rosto.
- Mas a prova de que lhe amo é que estarei de volta daqui a 14 dias para firmarmos compromisso. Onde fica sua casa?
- Seguindo essa estrada na direção leste, você verá um grande carvalho e ao lado dele uma pequena estrada. Ao seguir por ela, andará muito pouco e já verá nossa casa. Há um belo jardim na frente, e sempre há fumaça saindo da chaminé.
- Tem certeza que é essa a localização? Sua casa, por acaso, não fica do outro lado do rio?
- Não, já lhe disse que lá vive minha tia, que vou sempre visitar.
- Tem certeza que você não está me escondendo nada? Não tem algo que precisa me dizer? Algo a revelar?
Estela se sentiu tão confusa com a pergunta, e em particular pelo tom inquisidor com que ele pronunciava aquelas palavras, que não conseguiu responder nada. Nem parecia o doce e belo Alfredo que passava tardes a conversar com ela.
Ao ver que ela nada dizia, sorriu com satisfação. O que pareceu extremamente estranho para Estela.
- Está bem. Tenho certeza que no seu aniversário me revelará tudo. E eu também terei algo a revelar. Que sorte nós termos nos encontrados aqui no Riacho Azul.
Beijou a mão de Estela e saiu animado, galopando pela estrada. Estela ficou parada um bom tempo pensando o que significaria todas aquelas palavras. E por que será que Alfredo estava tão esquisito?
Tentou sorrir pelos 14 dias seguintes, mas seu coração agora estava sempre angustiado.



[Amanhã, às 20h, sai um capítulo novo]

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