Era uma
terça-feira, Estela estava no jardim a cuidar das flores para, como sempre,
vendê-las na feira. Era verdade que a variedade era menor por causa do tempo,
mas flores valiam mais nessa época, já que só jardineiros habilidosos
conseguiam mantê-las vivas. Por sorte, não nevava na região, caso contrário,
inverno seria sinônimo de fome.
Era
terça-feira e a mãe despontou na estrada. Estela não entendeu nada, já que o
duque de Ascriolan só dava duas folgas extras no ano – Natal e Virada de Ano, e não
era nenhuma das duas. Dona Verdana vinha afobada para contar a novidade. O
duque tinha dado folga a maior parte da criadagem pois passaria uma semana
fora. Haveria no reino grande festividade pelo natalício do príncipe Abelardo,
com um grande festival de inverno, com competições de arco e flecha, justas,
cavalgadas, bailes, apresentações de saltimbancos, menestréis, bardos e muitas outras coisas que a nobreza sabe inventar para passar o tempo.
Talvez,
Alfredo estivesse muito ocupado com as solicitações do príncipe e por isso não
apareceu - tentou consolar. Estela queria muito acreditar nisso, mas que tantas
ocupações poderia haver para um mensageiro se todos os amigos do príncipe
estavam com ele?
Os dias se
passaram e Estela já havia se conformado que aquela teria sido uma grande
ilusão. Ocupava seus dias pensando no seu aniversário que estava próximo e as
coisas legais que faria para celebrar a data. O mensageiro da aldeia estava
passando mais frequentemente por aquela bela casinha pois amigos e familiares
mandavam cartas de felicitações; e as irmãs tinham mandado presentes, conforme
a condição de cada uma: um broche, um livro, uma sandália trançada, um laço de
fita e um lenço bordado.
Por isso, foi
com grande surpresa que um dia Estela se deparou com Alfredo esperando por ela na
outra margem do Riacho Azul, como costumava fazer. Sentiu-se feliz e com raiva.
Foi até ele, mas não disse nada.
- Você não
está nem um pouco menos linda desde a última vez que lhe vi. Disse isso como o
mesmo ar de graça de sempre. E dessa vez Estela teve certeza que aquilo era
algo que a irritava.
- Como pode
aparecer assim depois de tanto tempo e agir como se não fosse nada?
E aqui, ele
mentiu para a ela uma segunda vez.
- Queria muito
vê-la, mas não pude. O príncipe não me deixou sair de perto dele. Ele sempre
precisa do meu auxílio para lembrar os nomes, lugar de origem e título das
pessoas. Juro que se pudesse teria vindo.
A
justificativa parecia plausível, no entanto algo no canto dos pássaros dizia a
ela que Alfredo não era confiável.
- Alfredo,
gosto de você e você sabe disso. Mas não sou boba. Não quero mais vê-lo a menos
que esteja disposto a assumir compromisso sério. Faço 18 anos daqui a 14 dias.
Quero que você vá a minha casa para jantar e conheça a minha família. Coisa que aliás
lhe peço a tempos e só ouço desculpas. Estou em idade de casar, e se não é essa
a sua intenção, é melhor que você parta e não nos vejamos nunca mais.
Alfredo
desviou o olhar e sorriu com malícia.
- Entendo.
Fico ofendido de pensar isso de mim, pois sempre pensei só coisas boas a seu
respeito. Minha admiração por você diminui diante de postura tão soberba. Você
quase me pediu em casamento!
Estela se
envergonhou e teve vontade de chorar. Olhou para o céu e respirou fundo. Evitou
piscar para que a lágrima não descesse pelo seu rosto.
- Mas a prova
de que lhe amo é que estarei de volta daqui a 14 dias para firmarmos
compromisso. Onde fica sua casa?
- Seguindo
essa estrada na direção leste, você verá um grande carvalho e ao lado dele uma
pequena estrada. Ao seguir por ela, andará muito pouco e já verá nossa casa. Há
um belo jardim na frente, e sempre há fumaça saindo da chaminé.
- Tem certeza
que é essa a localização? Sua casa, por acaso, não fica do outro lado do rio?
- Não, já lhe
disse que lá vive minha tia, que vou sempre visitar.
- Tem certeza
que você não está me escondendo nada? Não tem algo que precisa me dizer? Algo a
revelar?
Estela se
sentiu tão confusa com a pergunta, e em particular pelo tom inquisidor com que
ele pronunciava aquelas palavras, que não conseguiu responder nada. Nem parecia
o doce e belo Alfredo que passava tardes a conversar com ela.
Ao ver que ela
nada dizia, sorriu com satisfação. O que pareceu extremamente estranho para
Estela.
- Está bem.
Tenho certeza que no seu aniversário me revelará tudo. E eu também terei algo a
revelar. Que sorte nós termos nos encontrados aqui no Riacho Azul.
Beijou a mão
de Estela e saiu animado, galopando pela estrada. Estela ficou parada um bom
tempo pensando o que significaria todas aquelas palavras. E por que será que
Alfredo estava tão esquisito?
Tentou sorrir
pelos 14 dias seguintes, mas seu coração agora estava sempre angustiado.
[Amanhã, às 20h, sai um capítulo novo]

Comentários
Postar um comentário