Estela ficou
profundamente triste. Como tinha suas flores, sua mãe, sua tia, suas irmãs, o
Riacho, as árvores, os pássaros, o céu... e tudo mais, Estela se ocupou, os
dias passaram, e tudo virou uma lembrança distante. Passaram-se sete primaveras
desde aquela triste primavera, e aos poucos Estela se conformou de viver para sempre na casa da família e cuidar da mãe até o fim dos seus dias. Mas esse ainda não era o para sempre de Estela.
Os dias seguiam
iguais até que um grande evento estava para acontecer: O príncipe Felipe, havia
assumido a regência do reino desde que seu pai ficara acamado depois de uma
queda do cavalo. Agora, ele estava visitando todos os principados do reino,
para conhecer o povo e o povo conhecê-lo.
Haveria
um grande baile no castelo de Trolliteli e todos da redondeza deveriam ir.
Obviamente Estela não tinha nenhum interesse em conhecer príncipe algum, e tão
pouco ir naquele castelo. Mas todos eram obrigados a se apresentar. Os nobres
se apresentariam com suas famílias e os camponeses seriam apresentados em pequenos grupos, onde um único representante falaria por eles. A intensão de
Estela era, assim que seu grupo fosse apresentado, voltar para casa.
Aparentemente, ela era a única que não estava animada para o baile. Todos
os nobres contribuíram para a festa e haveria muita comida e todo o tipo de
atração. Apesar disso tudo, ela não estava fazendo grandes planos, nem caprichando no vestido. Até que
numa manhã recebeu a visita do representante do seu grupo. Seu Andrada estava
muito animado com essa oportunidade e pretendia alcançar as graças do príncipe
Felipe. Quem sabe, se o príncipe gostasse deles, poderia comprar diretamente
seus produtos agrícolas; eles teriam comprador certo e ainda valorizariam seus
produtos pois teriam o selo do grande principado.
A estratégia
era que as moças mais bonitas estivessem belíssimas e a frente do grupo ao lado
de Andrada, para atrair os olhares do príncipe enquanto falava. As razões eram boas e
por isso Estela concordou. Comprou rendas para disfarçar o puído da costura do
seu melhor vestido. Poliu o broche. Fez um penteado com o laço de fita
pendente. Corou os lábios e a bochecha. Ornou uma cesta bem trançada e colocou
as flores mais bonitas que encontrou no jardim. Segurou delicadamente o lenço de
modo a mostrar o bordado e partiu para o baile junto com a mãe (tia Gertrudes
já havia falecido).
O plano de Seu
Andrada deu certo. As moças mais belas do grupo ofereceram em cestas ornadas os
seus melhores produtos. A beleza das moças e qualidade dos produtos chamaram a
atenção do príncipe Felipe, que quis saber o nome de todos, o que produziam,
como viviam e como poderiam coordenar a venda e entrega dos produtos.
O príncipe
Abelardo olhava com despeito e desconforto para Estela. Pois a cada minuto que
ela se demorava ali, linda, na frente de todos, mais e mais pessoas a notavam.
Abelardo acabou levando o plano a cabo e estava casado com Josefina, que não
era deformada, e tinha certa beleza, mas era mimada, acostumada a dar
ordens e ser atendida prontamente. O que fazia da sua presença algo extremamente
desagradável.
Acertada uma
reunião entre príncipe Felipe e seu Andrada para o dia seguinte, o grupo se
retirou. Dona Verdana correu para a filha para felicitá-la por ter falado com
tanta desenvoltura das suas flores. E enquanto elas conversavam, se aproximou
um distinto rapaz.
- Com licença
senhoritas, me chamo Paulo. Sou o secretário pessoal do príncipe regente, e trago
um recado dele. Sua alteza gostaria de encontrar a senhorita Estela em um outro
momento para conversarem a sós, se é claro, a senhora sua mãe assim o permitir.
E antes que
Dona Verdana pudesse falar. Estela muito séria falou:
- Estou farta de príncipes que se valem da sua posição para tirar proveito de camponesas
inocentes. Por que me convida a um particular? Acaso fosse eu filha de um
nobre, faria esse mesmo convite? Não! Se tivesse boas intensões nesse interlúdio, dançaria a valsa de honra comigo. Mas ele não fará isso, pois não cairia bem a príncipes fazer figura junto a reles plebeias. Apenas lhes apetecem se divertir com elas.
Paulo ficou
atônito e sem entender tamanha aversão a um convite que geraria lisonja a
qualquer moça daquele salão, nobre ou não.
- Essa é sua
palavra senhorita?
- Não! Disse
Dona Verdana afobadamente.
- Sim! Disse
Estela olhando fixamente para a mãe.
- Minha filha,
pense bem. E o acordo. Falou quase sussurrando.
- Eu não estou
à venda. Pode levar minhas palavras ao príncipe. Se ele tiver o coração nobre
como dizem, certamente entenderá.
Paulo saiu. A mãe repreendeu a filha pelo atrevimento, enquanto Estela fingia não ouvir comendo petiscos.
- Mamãe,
entendo que a senhora fala para o meu bem. Mas não posso submeter minha honra a caprichos. Não posso expor meu coração, como uma vez já fiz, para agradar qualquer homem que seja. Se ele quiser desfazer o acordo por essa
pequena contrariedade, que desfaça! Não quero estabelecer nenhum tipo de relação
com pessoas desse tipo. Agora, já vou para casa.
- Mas já?! As
valsas vão começar agora. Talvez alguém a chame para dançar.
- Não mamãe.
Já vou.
Beijou a mãe e dirigiu-se para a grande porta que dava para a escadaria do jardim de entrada. Quando
cruzava o salão de baile, já vendo as carruagens do outro lado da porta, notou que todos estavam olhando na sua direção e abrindo caminho. Estela
ficou intrigada e parou olhando em volta. Então viu. Era o Príncipe Felipe que vinha naquela direção e todos abriam caminho para a sua passagem. Estela se afastou com
os demais, dando passagem, inclinando levemente a cabeça enquanto alargava a saia do vestido. Atônita viu, um par de botas brilhantes parada a sua frente. Ergueu a cabeça, mas manteve o corpo inclinado. Sua boca se abriu em surpresa: o Príncipe estava com a mão estendida na sua direção, com um largo sorriso, disse:
- A senhorita
me daria a honra dessa valsa?
Tão logo o
príncipe terminou de pronunciar essas palavras começou um grande burburinho no
salão, pois aquela era a valsa de honra.
- S-sim. Falou
quase inaudivelmente.
Estela nem pensou ao responder. Passaram-se alguns minutos até que ela processasse o que de fato, estava acontecendo ali. No começo da valsa, os
passos foram desajeitados, pois além de perplexa com a situação, Estela não dançava tão bem. Ambos não perceberam, mas havia começado a segunda música. Nesse ponto, Estela estava um pouco mais relaxada e valsava com um pouco de graça, já que se deixava conduzir. Eles se sentiram tão envolvidos naquele momento, que não pensaram e nem mesmo sentiram nada em específico, apenas permaneceram ali, um na presença do outro. E quando tocou a terceira música, eles foram capazes sentir o coração um do outro, então, bailaram divinamente.
- Desculpe se
a ofendi com o convite que fiz. Julguei que a descrição seria mais respeitosa.
Mas você tem razão, só se escondem aqueles que tem o que esconder.
- Não quis ser
grosseira. Mas já passei por muita coisa... que não vale a pena mencionar.
- Diga-me,
como uma florista pode ser tão bem educada nas suas palavras e nos seus gestos?
- Recebi minha
educação dos meus pais e avós. Até pouco tempo atrás não sabia, mas meu avô era
nobre.
- É mesmo?!
Como era seu nome?
- Não vem ao
caso. Ele renunciou seu título para casar-se com minha avó. E nós dois sabemos
que tão logo volte a seus afazeres normais não pensará mais em mim. Então, não gostaria de ficar dando informações tão pessoais para alguém que pergunta só por educação... ou por curiosidade.
- Pelo modo
que você fala, vejo que já teve seu coração magoado por alguém.
Estela encabulou-se, pois para perceber isso, era preciso que ele estivesse atento, não só as suas palavras, mas a ela como pessoa.
Eles
conversaram durante toda a noite a olhos vistos. Felipe apresentou Estela a seus
amigos e acompanhantes, incluindo seu tio Ferdinando que fazia parte da
comitiva. Estela viveu essa experiência com maravilhamento. Havia tanta naturalidade e reciprocidade em tudo que eles faziam que Estela esqueceu-se de tudo de ruim que tinha vivido, parecia que a vida era aquele baile, feita só de momentos felizes.
Só no final da noite, depois de voltar para casa com sua mãe, desfazer o penteado, guardar o broche, trocou o vestido pela camisola, e deitou a cabela no travesseiro é que Estela lembrou-se: - Ele é um príncipe. Um série de pensamentos turvaram as doces lembranças daquele baile. De modo que, apesar de todos aqueles momentos, Estela escolheu não guardar
qualquer esperança no coração.
[Hoje é a Season Finale, o último capítulo sairá às 21h]

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