33 anos

 

Eu, há 10 anos.


Em 26 de agosto de 1987 eu nasci.

Desde que às 22:22 desse dia tenho buscado ser eu mesma.

Como todos nós, minhas memórias são percebidas como fatos, mas são na verdade fatos distorcidos pelo sentimentos e pela visão de mundo que tínhamos na época e pela que temos hoje.

Digo que sempre busquei ser eu mesma porque sempre me senti estranha, sempre me sentia deslocada, e na maior parte do tempo - para desprezo e irritação de muito - me sentia feliz.

Desde pequena, não gosto de chorar. Durante um tempo tive medo, vergonha ou raiva de chorar. Hoje choro sem problema com tudo que me emociona, mas ainda assim, precisa muito para ver chorar de tristeza.

Sei lá, a tristeza simplesmente não combina comigo. Carrego em meu nome uma promessa de manhã de sol (Tainá quer dizer estrela matutina em Tupi), de modo que a tristeza nunca consegue se demorar.

Quando nasci, não chorei porque estava quase morrendo. Acredito mesmo que o dia do nosso nascimento e o nosso nome carregam uma profecia para cada um de nós. 

Por alguma razão, para mim é fácil não se apegar a vida, e por isso mesmo gosto tanto dela, e a aprecio com tanto carinho. Talvez porque para mim não seja natural ter o céu e as estrelas, os pássaros e as aves, o mar e sorvete. Então, tudo isso me comove e me alegra.

Qualquer um que já encontrou comigo na rua sabe que tenho o dom de transformar um cumprimento de 3 minutos em uma conversa de 3 horas. A vida para mim tem sido assim: eu vou me demorando, e me demoro porque tem sempre algo mais a ser dito, algo mais a ouvir, algo mais...


Gosto muito do meu aniversário, mas de uma maneira tranquila. É um dia que tiro para gostar de mim e apreciar toda a minha trajetória de vida.

Desde criança tive meu imaginário permeado de castelos e princesas. A medida que fui crescendo e conhecendo o que é uma princesa na realidade, me encantei ainda mais com essa imagem estética.

O arquétipo da princesa é uma síntese de beleza, virtudes, inteligência e política. Alguém que tendo pessoas sobre o seu jugo, fará sempre o bem com beleza. E é isso que quero para mim.

Meu castelo é cada casa que me recebe. Meus súditos, a quem devo servir e cuidar, são todos aqueles que passam no meu caminho. Minhas batalhas, são todas aquelas que buscam a justiça.

Embora meu imaginário seja de castelos e princesas, eu não gosto de "sonhar". Prefiro ter olhos realistas que fitam a vida sem se desviar. Digo brincando (só que é verdade) que só tive dois sonhos e ambos deram errado, então esse negócio de sonhar não me parece muito lucr\ativo.

Todo ano, no meu aniversário, gosto de montar em meu cavalo branco (influência direta da She-Ha), subir na colina mais alta do meu reino e contemplá-lo. Quem são os cidadãos do reino? Quem chegou e quem partiu? Quem eu decretei que parta? Quais prédios foram construídos? Quais precisam de reforma e quais vou deixar desmoronar? Estão vigorando leis injustas por aqui? Tudo está sendo feito da melhor maneira possível?

Eu sempre começo essa vistoria, por volta de dezembro, porque, afinal, eu não comecei a existir só depois do parto.

Em dezembro de 2019 eu senti que morri. Tantas coisas de mim foram tiradas. Veio uma enchente e destrui muito da minha cidade. Poderia ter feito barreiras e drenagens, mas o murinho e o saneamento que preparei foram nada. Quando tudo ía desmoronando e sendo levado pela enchente eu só pensava "não quero que meu reino acabe", e ele só acaba se eu deixar de ser princesa, se eu permitir que meu coração se torne amargo.

Prédios, ruas, coisas, pessoas, tudo isso pode ir e vir, mas o meu coração precisa ser sempre forte e sempre nobre, pois só ele permitiria ter os poderes necessários para recomeçar.

A cidade ainda está em reconstrução. Alguns súditos partiram para nunca mais voltar, alguns poucos morreram, outros estão passando temporada na casa de parentes, mas tem aqueles que estão próximo do castelo e jamais partiriam. São eles que estão me ajudando a tirar os destroços, os intulhos. São esses que fazem a cidade alegre, mesmo em ruínas.

E o que seria de uma princesa sem seus súditos? Princesa de nada.


Perder é muito difícil. É difícil quando não se pode culpar alguém (uma enchente). E mais difícil ainda quando se pode (uma enchente criminosa).

Mas, sabe? O meu coração é meu, e tudo que cabe nele, eu aguardo lá e ninguém pode levar.

Ainda posso pensar que a vida é boa porque tem sorvete. E ficar feliz de ver vaquinhas pastando. E me sentir mística quando acordo cedo e tem neblina. E me sentir rica por deitar numa caminha fofinha e quentinha. E pensar que meu reino é o maior do mundo, porque ele não tem fronteiras - nele cabe o mundo inteiro e cabe também tudo que é tão grande que não cabe no mundo.


Para todas as pessoas que habitam o reino da Tainá, que passeiam nos meus Dias Radiantes (virtuais e presenciais), muito obrigada. Saibam que não ouve um único sorriso, uma única palavra gentil que tenha passado despercebida. Eu olho e vejo todos vocês. Saibam que penso coisas boas sobre vocês, e que certamente há algo que admiro e me espelho.

Muito obrigada por vocês existirem na minha vida! Desde os amigos que vem na minha casa, até a pessoa que está sempre curtindo minhas fotos no Instagram. Desde os amigos que não vejo há tempos até quem leu/viu qualquer conteúdo meu e gostou. Desde colegas de situações específicas até aqueles com quem cruzo nas ruas.

Muito obrigada! Cada um de vocês deixou algo pela cidade, e o meu reino foi mais rico e feliz por isso.



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