Há coisas extremamente banais e cotidianas,
e nem por isso elas deixam de ter a sua importância. A importância de cada uma
dessas coisas está no desconforto causado por não saber executá-las bem. A
maioria delas só se aprende a ter boa desenvoltura depois dos 30 anos, até lá
fica-se frequentemente com cara de tacho diante da vida, sentindo-se
desconfortável e pensado o porquê de você ter vindo ao mundo. Não se atormente
mais, jovem leitor, esse manual foi feito para você.
Como
chupar confeito
Começaremos falando que há variações
quanto a nomeação desse fenômeno. Se você o assim designa, significa que sua
experiência se situa no Nordeste do país que habitamos, exceto quando há
exceções.
Dá-se que por aqui o clima é, durante 353
dias no ano, quente e úmido. Outro fato que nos interessa é que o açúcar ante o
calor e a umidade derrete. Advém, em decorrência desses dois primeiros fatos,
que crianças passam a infância inteira travando batalhas para deleitar-se com
um simples confeito.
Os confeitos apresentam duas variações:
mole e duro. Começaremos pelo duro, por ser mais fácil. Puxe as extremidades da
embalagem segurando firmemente (o melado causado pelo açúcar, às vezes faz a
mão escorregar, fique atento!); isso vai fazer o confeito girar. Depois, com
delicadeza e com as pontas dos dedos desembrulhe o confeito até a metade. Esse
é o momento mais tenso: dobre a parte externa da embalagem até a metade que foi
desembrulhada de modo que você não suje a ponta dos dedos; leve o confeito até
a boca e prenda entre os dentes, puxando em seguida o restante do papel. Se
tudo deu certo, o confeito fica em sua boca e o papel na sua mão. Pode
acontecer de ambos entrarem na boca, ou de ambos caírem no chão. É por isso que
confeitos são baratos.
Quanto aos confeitos moles, os princípios
são os mesmos, mas é necessário mais habilidade, uma vez que você precisa
raspar os dentes na embalagem, que não está apenas melecada, mas com todo o
confeito derretido.
Como é impossível guardar a embalagem no
bolso, segure-a até encontrar o lixeiro. Ao encontrá-lo, jogue o papel e lamba
a ponta dos dedos. Não é dado lavar as mãos por chupar confeito. Se você não
encontrou um lixeiro até terminar de chupar o confeito, disfarce e jogue o
papel no chão – não é culpa sua que a sociedade precise de reformas estruturais.
Como conversar desconhecidos I
Quando se é criança fala-se com outras
crianças ou com os adultos que seus pais mandam falar. À medida que crescemos
nossos ciclos de relações aumentam e passamos a conviver com muitas pessoas
pelas quais não temos nenhum interesse. Essa é a causa de experimentarmos o
terrível fenômeno de conversamos com pessoas que nos conhecem, mas que são
completos desconhecidos para nós.
Primeiro passo é certificar-se que a
pessoa está de fato falando com você. Certifique-se de que não se trata
de dois desconhecidos, e que a pessoa realmente lhe conhece. Geralmente é fácil
de distinguir, pois a pessoa vai lhe chamar pelo nome. Reze a Deus para que ela
não pergunte se você lembra dela, pois é triste admitir de que você não faz ideia.
Partindo do princípio de que você teve
sorte e o desconhecido não lhe fez essa pergunta, sorria! Tanto pelo alívio,
quanto para que a pessoa não se sinta mal e descubra que está falando com um
estranho. Olhe nos olhos, mas não muito, pois tem chances de ela perceber que
você está fazendo esforço para se lembrar quem ela é.
Em seguida faça, perguntas genéricas, mas
que podem dar pistas: Como vão as coisas? E a família, vai bem? Eu estou
trabalhando em tal lugar, e você? Lembre-se de sempre sorrir e não responder
monossilabicamente. Assim, pode-se atingir até 17 minutos de conversa.
Nunca diga que está com pressa, pois a
pessoa pode dizer que vai andando com você, ou desatar perguntas que você não
saberá responder. Seguindo essas instruções, o desconhecido mesmo encerrará o
diálogo e ainda partirá satisfeito por ter encontrado um velho amigo que é tão
agradável quanto ele se lembrava.
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