Não sou o tipo de pessoa assídua em filmes de super heróis. Assisto a um filme ou outro que me chama mais atenção. Mas os filmes do Batman assisto desde pequena. Inclusive o primeiro filme que lembro de ter assistido no cinema foi Batman dirigido pelo Tim Burton. E como não sou leitora de quadrinhos nem fã de super heróis, segui sempre achando um filme divertido.
Isso porque, me parece, que a opinião geral é que filmes de heróis são épicos, são complexos, são maravilhosos... Quando grande parte da complexidade e maravilhamento se deve a encontrar relações entre diversos personagens e suas histórias em quadrinhos, e a atender ou não expectativas e suposições de fãs.
Falando assim parece que não gosto de super heróis ou do mundo nerd. Gosto sim, e em muitos aspectos faço parte dele. Mas não é porque gosto que suponho que algo seja mais do que é. Gostar de uma obra não implica necessariamente na qualidade dela. Dito isto, o que achei de The Batman? Eu gostei.
O filme toca em algumas temáticas interessantes. A atuação do Robert Pattison e do Paul Dano estão muito boas. A ambientação e cenário também. No entanto, pelo próprio gênero ao qual pertence, o filme deixa de se aprofundar nos temas que ele mesmo quer tratar.
A seguir destaco algumas temáticas que encontrei no filme seguidas do meu comentário.
Luto, perda e trauma
Esse é um tema central a toda história do Batman, por causa da história de vida do personagem e da sua motivação primária. Sempre há o dilema do herói do que fazer com a dor e a revolta. As mágoas de ter que lidar com a ausência dos pais ao longo da vida; e não só dos pais, mas de todo um cenário familiar, que sempre está restrito a única pessoa do Alfred.
O Batman sempre tem que lidar com seu impeto de vingança para no fim se manter fiel aos seus princípios. Para mim, a novidade desse filme é que o luto do Batman que normalmente é interpretado através de um ar taciturno e indiferente aqui vem carregado de melancolia e apatia. Isso fica visualmente explícito num Bruce Wayne que não tira a maquiagem dos olhos e veste moletom ao inve´s de um terno caríssimo e um penteado impecável, como costumamos ver. Mesmo em momentos sociais de aparição pública, sua aparência é simples, apática e trágica. Isso está no seu cabelo, na sua voz, no seu jeito de andar.
Gostei muito dessa nuance, porque por mais que pessoas que percam entes queridos possam ter sentimentos de revolta e vingança, no dia-a-dia, o que prevalece é uma grande tristeza, e uma busca desesperada por algo que preencha e dê sentido aos dias - o que no caso do Batman é prender bandidos nas noites de Gotan.
Liberdade e contingências
A Mulher Gato diz para o Batman algo como: seja lá quem você for, sei que você é rico; como pode falar de escolha numa situação como essa?!
Quase bati palma na sala de cinema!
A liberdade não é fazer tudo que se quer, a liberdade é sempre contingenciada. Sempre há escolha, mas devemos considerar as contingências. Há contigências de todos os tipos: psicológicas, sociais, econômicas... Cada pessoa escolhe a partir da sua capacidade, conhecimento e possibilidade dentro de um determinado momento. Claro que isso não implica na ausência de consequência. Falar em contingências não é desresponsabilizar os atos das pessoas, mas simplesmente julgá-los com mais justiça.
O filme ensaia um discussão sobre a liberdade ser condicionada a poder econômico, mas infelizmente limita-se a duas falar que apontam a questão, sem fazer dela uma real problemática.
Questões de classe
Nos últimos filmes tem se tocado nessa temática, porque o Batman é milhonário, e longe de ser uma questão tangencial, é central, pois sua atuação como herói se deve ao seu dinheiro (equipamentos e aos ambientes e pessoas que ele acessa como Bruce). Soma-se a isso, o fato de ele possuir um patrimônio que foi herdado e não construído.
Penso que para o momento em que vivemos e para o público que esse tipo de filme atinge, essa é uma questão que enriqueceria demais o filme. Óbvio que não falo de algo didático, ou simplório como os ricos são maus, mas de uma reflexão inevitável do personagem, uma vez que ele é um milionário que entra em contato com a pobreza, o crime e a prostituição todos os dias. Qualquer um de nós quando se depara com alguém em uma situação econômica bem mais baixa que a nossa, se põe a refletir, quanto mais o Batman. Longede ser mimimi, isso humanizaria e enriqueceria o personagem.
Encarar a questão de frente poderia mostrar que no fim das contas o dinheiro é só um meio, e esse seria mais um motivo para admirarmos a virtude de um herói que podia se limitar a ser um playboy ou um filantropo, mas decide "salvar" a cidade, fazendo disso a sua principal ocupação. Pena que o filme fica tímido diante da questão e aborda toda a revelação no plano individual, circuncrevendo a problemática em termos de "o filho não conhecia realmente seu pai e se decepciona com verdades duras".
Legado
E com isso chegamos ao, que para mim, é o tema principal do filma: Legado. Bruce Wayne recebe o legado do sua família - reputação, dinheiro, fama, reconhecimento, mas também tragédia, relações obscuras e ambiguidade de caráter.
Por mais que ele queira mudar e alterar esse legado, simplesmente não é possível, pois o que muda são apenas aspectos secundários. Ele não mata, mas espanca os bandidos. Ele quer salvar a cidade, mas não se importa pessoalmente com ninguém. Ele quer lamentar a sua tragédia pessoal, mas ao invés de seguir em frente usa-a como coluna central da estruturação da sua personalidade. Ele quer vingança pela perda da sua família, e é essa mesma família que compõe o sistema que a matou.
Estou animada para os próximos filmes e para ver que rumos o personagem irá assumir.
A seguir os pontos altos e baixos do filme para mim.
Pontos Altos
1. O Batman com o olho borrado da maquiagem e franja caída na testa fazendo o estilo emo anos 2010.
2. A atuação do Pattinson deum Batman completamente retraído e introspectivo, aspecto que ficou mais aparente na despedida do Batman da Selina, onde conseguimos sentir que ele quer ficar com ela, beijá-la, abraçá-la, mas mal consegue retribuir o beijo que ela lhe dá.
3. Eu não sei se Pettinson é o melhor Batman, mas definitivamente, para mim, ele é o melhor Bruce Wayne. A cena dele chegando no velório com o cabelinho lambido de lado... Um típico almofadinha carente e inseguro, passando realmente a imagem de um rico excêntrico.
4. Sempre elogiam o realismo em um filme de herói quando estar-se a elogiar efeitos especiais. Realismo é aquilo que fica próximo a realidade. E aqui há muito disso. Desde os equipamentos utilizados (objetos, que mesmo quando caros, são reias e estão aqui no nosso mundo) até o físico do Batman que é forte, mas em proporções realísticas, inclusive de modo compatível com a movimentação que o personagem pede.
Pontos Baixos
1. Certos momentos em que o filme se levava a sério demais e colocava poucas falas, longos silêncios ou uma música solene demais na trilha sonora.
2. A relação do Batman com o Alfred... está dito no filme, mas o espectador não sai convencido da importância que um tem para o outro.
3. A tendência atual de justificar todo vilão com um transtorno mental. Parece que no mundo dos heróis não existe mais gente ruim, só existe gente genial e perturbada.
4. A cena pós crédito. Não precisa ter. Mas sempre tem. Mas o diretor não queria que tivesse. Aí coloca a cena pós crédito como cena final do filme e um falsa cena pós crédito depois de TODOS os créditos.
Saldo Geral
Gostei. Verei o próximo.
Não fui público de Crepúsculo, mas talvez ainda seja tempo de eu ter um crush no Robert Pattinson.
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