Viagem pelo sertão nordestino

 No início de janeiro de 2026 viajei pelo sertão e visitei o Santuário do Pai Todo Poderoso (Malta, PB), a Cruz da Menina (Patos, PB), o Açude Gargalheiras (Acari, RN) e a estátua de Santa Rita de Cássia (Santa Cruz, RN). Foi uma viagem de carro, feita entre amigos, em um fim de semana. Esse post não tem a intensão de ser uma indicação de viagem ao auxílio de roteiro turístico. Nele, irei compartilhar as reflexões que fiz durante a viagem.




Partimos de Natal rumo à Malta, e foi um deleite passar horas e horas observando o sertão. Apesar de ser verão, e não termos, na maior parte do tempo, o verdinho das árvores, é muito bonito toda a geografia sertaneja. Inclusive, descobri que as formações rochosas que encontramos por lá chamam-se "inselberges", e só existe aqui, bem como a vegatação caatinga, que é única no mundo. Impressiona-me como posso sempre amar mais esse meu lugar no mundo.


Nem sempre foi assim. Tinha a opinião geral dos brasileiros que vê a Europa como grande modelo de civilização e de beleza. Hoje, essa é uma visão tão distante de quem eu sou, que preciso me esforçar para lembrar que nem sempre foi assim.


Chegando ao Santuário, essa sensação de deslumbramento aumentou ainda mais. O templo é lindo. Lembra um castelo, mas tem aquela salada arquitetônica própria no novo mundo (janelas medievais, colunas renascentistas, pinturas modernas...). Construído no meio do nada. Só há natureza até onde a vista alcança. E o "the final touch" é o tanto de passarinho que fica revoando no teto, entrando e saindo conforme a vontade.


O lugar era muito ventilado e agradável. Porém, bastava dez minutos ao sol para o calor nos afligir. Foi aí que comecei a refletir sobre como a humanidade é capaz de grandes feitos. Sobreviver, resistir e constituir culturas nos ambientes naturais mais diversos: viver na neve, deserto, no mar... Construir, decobrir, inventar... Nesse momento entrei numa vertigem de pensamentos sobre grandes feitos da humanidade. A qual almeja como próximo grande passo a colonização do espaço. É interessante ver como um cidadão comum pode falar com fevor e convicção "um dia, vamos morar em Marte"!


A humanidade pode muito, pode coisas maravilhosas. Pode navegar nas profundezas do mar, mas não pode criar um único peixe. Pode voar pelos ares, mas não pode comandar as nuvens. Pode chegar no espaço, mas não capaz de nomear todas as estrelas. Mesmo um pequeno grão de areia, não pode ser criado, porque na verdade todos os elementos químicos já existem. No máximo, podemos pegar a Criação e rearranjá-la, organizar tudo de forma a dominá-la. Subjulgar a natureza que jamais poderemos criar - eis inspiração que está no coração de todos os homens. Todavia, não precisa ir muito longe na história para saber que a Criação sempre nos escapa, e nos supreende. 


Todas as vezes que nos tomamos por senhores do mundo, a coisa desanda. E a espécie mais prejudicada é sempre o próprio homem. O poder sobre o mundo, as coisas e os outros, é a segurança que buscamos. Mas não precisa ser assim. Podemos trocar a dominação pela cooperação. É isso que os povos que resistem e persistem na natureza extrema fazem. Essa casa chamada mundo não é nossa, e o Senhor dela, não podemos derrotar. Apesar disso, podemos habitá-la como filhos. E assim, poderíamos trocar a lógica da força pela lógica do amor.


Isso é tão distante do que vemos em nosso dia a dia que chega a ser risível afirmar tal coisa. Tão pueril quanto acreditar em unicórnios. Mas, deixa eu lhe confessar uma coisa? Eu acredito em unicórnios. Não no sentido metafórico, mas no sentido real das possibilidades. Para mim, um unicórnio é tão possível quanto alguma espécie de aranha australiana que não sei nomear. Vivemos tão imersos em uma cultura midiática cada vez mais totalizante, que o mundo real a nossa volta se torna cada vez mais alheio.


A primeira vez que li Platão, graças a ignorância dos meus 20 anos, pude achar muito besta a máxima de Sócrates: "Só sei que de nada sei". Menos mal que eu já exercitava o bom hábito de pensar com minha própria cabeça, mesmo que fosse para pensar asneiras. Porque quando um pensamento é nosso, ele permanece, e pode ser transformado pelo tempo e pelas experiências. Hoje, faltando pouco menos que dois anos para meu aniversário de 40, comcordo totalmente com o Sócrates de Platão - a única sabedoria possível é reconhecer a limitação do que podemos conhecer, para não se embrigar na própria ignorância.


É também por isso que escrevo na internet - não posso correr o risco de me levar muito à sério, de achar que tenho coisas muito importantes para dizer. Eu tenho coisas a dizer, as quais são importantes para mim que sejam ditas; e apenas isto. Além de sobreviver no ambiente hostil chamado intelectualidade.



Quem quiser ver algumas imagens da viagem, pode conferir alguns shortz nos quais compilei parte da viagem:

Malta, PB: 


Patos, PB: 





Acari e Santa Cruz, RN:

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