Mar Adentro - Incursão II: Qui sunt fratres tui?



Completada a primeira Incursão na semana do carnaval, dediquei  o restante do mês de fevereiro para considerar e elaborar a Incursão II, que se inicia dia 1º de março e vai até a Páscoa (05 de abril).

Se na Incursão I o foco era "apressar-se vagarosamente", ou seja, buscar o próprio ritmo, sem atropelos ou demoras, agora o foco é entender os recursos que temos para a viagem. Desse modo, escolhi o tema da Incurssão II: "Qui sunt fratres tui?" (Quem são os teu irmãos?).


No dia 02 de janeiro assisti ao filme A longa marcha (2025), dirigido por Francis Lawrence, e baseado numa novela de Stephen King de mesmo nome. Foi esse filme que plantou o início da reflexão desta incursão. A história foca nos jovens que entram para um reality show no qual eles precisam caminhar, sem parar para nada, até que reste apenas um, o qual será o vencedor de um prêmio em dinheiro. Apesar de o filme ser classificado como horror (e de fato, tem esse elemento bem presente), há muito de drama. Ao terminar o filme, fiquei com a seguinte ideia martelando na minha cabeça, "afinal, o que mais importa é quem caminha ao nosso lado".


Falar da vida utilizando a metáfora do caminho/jornada/caminhada é algo bem difundido. Só que normalmente o foco permanece sobre o próprio caminho -- as coisas que viu, que superou, o quanto foi caminhado... É o sujeito e a estrada. Mas esse filme me fez mudar um pouco o foco dessa metáfora. Pois, nunca caminhamos só, há sempre mais pessoas nessa estrada, que podem ser amigas, indiferentes ou até rivais.


Para um daqueles jovens, o caminho termina em uma grande vitória, mas para todos os outros, a estrada termina com a morte. No entanto, se pensarmos bem, a vida real difere do filme, pois a estrada termina igual para todos, uma vez que só paramos de caminhar quando morremos. A diferença é apenas em qual ponto nós vamos parar. É isso que é viver, caminhar ao lado de outras pessoas; e devemos seguir caminhando, pois o preço de parar, é a morte.


A metáfora da vida como caminho é tão poderosa que nos iludimos com falsos pontos de chegada: vencerei quando entrar no curso de graduação que quero; vencerei quando conseguir o emprego que almejo; vencerei quando casar; vencerei quando tiver dois milhões na conta... São formas de nos iludirmos e nos mantermos caminhando; é mais fácil caminhar quando pensamos que a chegada está logo ali, uma chagada que simboliza vitória. Mas a verdade é que não existe "vencer", porque todos - todos - vamos morrer. Se a morte acontece nos primeiros metros ou nos mil kilometros, não importa. Ela sempre será a nossa linha de chegada.


Antes que esse texto caia no pessimismo existencialista de Sartre, devo dizer que a falta do marco de vitória, não nega que há sentido em caminhar; graças às pessoas que podemos escolher para caminhar conosco. Caminhar vale à pena porque é a forma que temos de estar uns com os outros. Ter alguém para quem podemos dizer "caminhe comigo", dá sentido aos passos dados. Há pessoas com quem traçamos brever passeios, e há pessoas de longas jornadas. Mesmo assim, todas elas, compõe o caminho. É a companhia delas que impõe a necessidade de um passo após o outro. Algumas podem até nos ajudar a carregar um pouco o peso que trazemos, podem nos fornecer um refresco, ou apenas a palavra de incentivo para olhar os passáros no céu e não os buracos no chão.




A primeira formulação que me ocorreu foi a frase de Deus interrogando Caim: "Ubi est Abel frater tuus?" - onde está o teu irmão?

Acho que essa pergunta não interpela a todos nós? A pergunta que é feita na origem do mundo, na construção da sociedade, mostra que desde o princípio há o veneno das relações (egoísmo, inveja, assassinato). Essa pergunta é retomada no Novo Testamento, só que agora as posições estão invertidas, o homem indaga a Deus (um fariseu questiona Jesus): "Et quis est meus proximus?". Não há porquê falar em irmãos, uma vez que as divisões sociais estão muito bem estabelecidas - pagãos não são iguais a judeus, mulheres não são iguais aos homens... Não há mais a concepção de irmandade universal.


Mais uma vez a pergunta ressoa: Quem é meu irmão?
Parece disnecessário dizer, mas não é, que o sentido da palavra irmão não é restrito. É exatamente essa a resposta de Jesus. Irmão é todo aquele de quem nos irmanamos. Mesmo assim a pergunta continua: Quem é meu irmão? A quem devo me aproximar?
Mais uma vez, o foco precisa ser ajustado. Não se trata do que "eu devo" fazer, e sim do que o "outro precisa". Você deve ser irmão de quem precisa de um irmão.


Mesmo assim, a pergunta permanece: Quem é meu irmão? 
Pessoas de convívio constante podem ser distantes, e pessoas que não vemos há muito tempo pode ser próximas. Pessoas que socialmente temos vinculo podem não ter qualquer significado para nós, em contra partida, há pessoas que elegemos como mais próximas que familiares. Por isso, sendo honesta com vocês, tudo que posso oferecer de resposta, por enquanto, é: eu não sei.


Bom, temos aí mais ou menos um mês para pensarmos a respeito e tentarmos descobrir. Quem são teus irmãos?

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