[Ensaio] Uma voz que conta: o narrador homérico

 



A relevância da obra de Homero é imensurável. O impacto de tal obra para diversas áreas do conhecimento no mundo Ocidental é extensa. Neste breve ensaio pretende-se analisar o narrador homérico e discutir seu impacto para a tradição literária ocidental. Sendo estes textos do século VIII a.C. marcam o fim de uma longa tradição oral. O texto de Homero se estabelece, desde a Antiguidade como referência e modelo para outros escritores (Lourenço, 2013).

A tradição oral mais antiga indo-europeia tem em seu repertório canções nas quais o texto é versificado. Este é o escopo que irá formar a literatura latina, cuja maior expressão é o épico, e o maior autor é Homero (Cardoso, p.3-4, 2011). Por isso, seja para dar continuidade a uma tradição ou para se opor a ela, a Ilíada e a Odisseia são textos incontornáveis.

Walter Benjamin (1987) define o narrador tradicional dentro de duas possibilidades, o narrador viajante (que experimentou aquilo que narra) e o narrador coletor de histórias e tradições (que as recolhe e repassa). Desse modo, o narrador homérico não apenas se encaixa nessa definição, como é a referência maior para o estabelecimento deste conceito. Nas obras aqui sinalizadas, a postura do “narrador coletor” se estabelece no primeiro verso de ambas obras: “Canta, ó deusa, a cólera de Aquiles, o Pelida” (Lourenço, p.109, 2013) e “Fala-me, Musa, do homem astuto que tanto vagueou” (Lourenço, p. 119, 2011).

O narrador na Ilíada e na Odisseia é constituído na terceira pessoa, para assim, ter uma visão ampla e panorâmica dos fatos do enredo. Mas mesmo assim, tais eventos não podem ser conhecidos por apenas um único homem, visto que abarca também a atuação dos deuses olimpianos. Por isso, ele recorre à Musa, para que ela lhe conte tudo o que ele não pode saber dos fatos, como fica evidenciado também pelo seguinte excerto: “Dizei-me agora, ó Musas que no Olimpo tendes vossas moradas / pois sois deusa, estais presentes e todas as coisas sabeis, / ao passo que a nós chega apenas a fama e nada sabemos” (Lourenço, p. 148, 2013). Aqui se evidencia a limitação humana em oposição a capacidade dos deuses, e sendo o narrador perspicaz, recorre ao favor destes para universalizar as dimensões do enredo narrativo.

Nesse sentido, o fator mitológico acaba contribuindo para a verossimilhança. Uma vez que a narrativa acontece em dois planos: humano e divino. Só a Musa, sendo uma deidade, pode participar de ambos, e o narrador, como seu favorecido, o participa por conseguinte. Dessarte, os deuses e suas ações não são apenas personagens, mas um elemento central da história.

É importante destacar que o retrato dos deuses e da sua atuação no contexto de produção e recepção dos textos homéricos é diferente da atual. Pois, a verdade enraizada na cultura não é a mesma daquelas que são baseadas em critérios científicos, que tanto povoam o imaginário moderno. Como aponta Veyne (1983), mesmo para os não adoradores dos deuses olimpianos, a sua existência e ação se tornam verdades históricas de um povo e um fato. Ao tentar apagar ou menorizar a ação dos deuses terminamos por mutilar a coluna vertebral da narrativa da Ilíada e Odisseia.

Isto evidencia-se ainda mais, pelo pilar narrativo que é estabelecido no primeiro verso do épico (já aqui citados), no qual os dois eixos são postos de formas dependentes. É a Musa que falará da cólera de Aquiles, e também ela falará sobre a astúcia de Odisseu. Desse modo, o narrador se torna apenas um intermediário. E o leitor é movido a uma postura de reverência tanto pelos homens heroicos e seus feitos, como pela presença constante dos deuses em meio às suas labutas.

O enredo deste poema épico é apresentado por um narrador em terceira pessoa, observador, não participante dos eventos. Apesar de ser em terceira pessoa, não é onisciente, porque no mundo clássico não há preocupação com a subjetividade das personagens. O que importa à seu respeito está nas ações – a hýbres se manifesta em atos, bem como a areté.

Para Adorno (2003) o impulso narrativo surge na tentativa de decifrar o enigma da vida. Podemos observar isso nos épicos de Homero, pois estes não se limitam apenas a um relato histórico ou registro crônico de uma elite. Mas sim, na apresentação acontecimentos relevantes para a história de um povo. Ao mesmo tempo em que trata do seu destino e sua missão enquanto nação, não deixa de destacar estes eventos não se desenrolam ao acaso ou apenas pelas mãos dos heróis, mas também pelo papel desempenhado por deuses como Zeus, Hera, Atena, Poseidon, entre outros.

Isto se dá porque para o espírito grego, a poesia é a forma de compreensão cósmica a partir de criações humanas. Dessa forma, a poíeses seria composta por elementos de um discurso ordenador do mundo, e não como uma simples peça de entretenimento. Assim, a mimese permite a representação do mundo invisível a partir do visível, e vice-versa, pois “a musa homérica tudo pode dizer por tudo ter visto” (Brandão, p.16, 2005).

Assim, as contribuições dos estudos clássicos para a área das letras em geral são imprescindíveis, pois não se limitam apenas a obras de referências temáticas, mas estendem-se a questões estruturais da literatura, como o surgimento do narrador do romance. Mesmo que a estrutura seja em versos, compondo uma lírica, há ainda um enredo que apresenta a sequência de acontecimentos, e um perfil de narrador, que surge e se consolida por séculos.



Referências Bibliográficas

ADORNO, Theodor. A posição do narrador no romance contemporâneo. In: ADORNO, Theodor. Notas de Literatura I. Tradução: Jorge de Almeida. São Paulo: Editora 34, 2003.

BENJAMIN, Walter. O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In: Obras escolhidas: magia e técnica, arte e política. Tradução: Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Editora Brasiliense, v.1, 1987.

BRANDÃO, Jacyntho Lins. A invenção do romance. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2005.

CARDOSO, Zélia. A literatura latina. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2011.

HOMERO. Ilíada. Tradução e prefácio de Frederico Lourenço; introdução e apêndices de Peter Jones. São Paulo: Penguin Classics, Companhia das Letras, 2013.

HOMERO. Odisseia. Tradução e prefácio de Frederico Lourenço; introdução e notas de Bernard Knox. São Paulo: Penguin Classics, Companhia das Letras, 2011.

VEYNE, Paul. Acreditavam os gregos em seus mitos? Ensaio sobre a imaginação constituinte. Tradução de Horácio Gonzáles e Milton Meira Nascimento. São Paulo: Editora Brasiliense, 1983.

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