Esse é um provérbio da Antiguidade do qual suprimi a primeira palavra (Medice, cura te ipsum), que quer dizer "médico, cura-te a ti mesmo". Essa máxima chega até nós por causa da sua menção no Evangelho segundo Lucas. O contexto de aplicação é apontar a hipocrisia de quem queixar-se dos outros em aspectos que ele mesmo não melhorou.
Aqui, cabe essa aplicação de sentido, pois é sempre bom estamos atentos na relação com os outros. Especialmente por a hipocrisia partir muitas vezes do alheiamento de si mesmo, no qual a pessoa não enxerga a si, a realidade das suas ações, a verdade do seu comportamento.
Acredito que de alguma forma esse aspecto foi contemplado nos outros intinários deste Mar Adentro. Por isso, quero agora me dedicar no sentido direto da expressão - curar a si mesmo. Quero, neste percurso, me dedicar a cuidar de mim. Como uma prioridade. Como se estivesse cuidado de outra pessoa.
É interessante que ao longo da nossa formação como pessoas aprendemos a cuidar da casa, dos compromissos escolares, depois dos compromissos profissionais. À medida que nos tornamos adultos, também vamos cuidando de outras pessoas (irmãos mais novos, cônjuges, filhos, pais idosos...), mas muito pouco aprendemos sobre cuidar de nós mesmos.
O primeiro grau de cuidado é atender às necessidades do corpo. Isso inclui higiene, alimentação, movimento e sono. Já aqui percebemos como somos falhos nesse aspecto. Por ser brasileira, tenho o benefício de estar numa cultura na qual a perfeita higiene é imprescindível. Mas os outros aspectos físicos já não recebem a mesma atenção. É comum que na adolescência entendamos que dormir pouco é um preço a se pagar para ter os estudos em dia; e que uma boa noite de sono é recompensa apenas para dias de folga
Preferi usar o termo movimento porque não quero ser mal interpretada dizendo "esporte", correndo o risco de pensarem que falo sobre forma física, músculos ou emagrecimento. Falo mesmo de movimento: andar, sentar, se abaixar, carregar sacolas... Para viver, precisamos nos mover. Mas a realidade das pessoas é terem vidas cada vez mais restritas. Não é possível caminhar nas ruas por insegurança, passamos horas em uma mesma posição no trabalho, gastamos nosso tempo livre oscilando entre outras obrigações da vida adulta para além do trabalho e o tempo excessivo em telas.
Além disso, nos damos conta de que comer bem envolve o aditivo mais precioso da contemporaneidade - tempo. É preciso ir ao supermercado, preparar os alimentos e depois lavar a pilha de louças que fica. E na conta das horas da semana divididas pelo excesso de tarefas, esse é um dos primeiros aspectos do auto cuidado que deixamos de lado.
Só de mencionar o cuidado básico com o nosso corpo, tenho certeza que vários leitores se sentem extenuados. Mas essa não é a pior parte. Porque esta é a parte da qual a maioria de nós está consciente, e é mais ou menos a mesma para todo mundo. A pior parte é que não somos só um corpo, somos também mente e alma. E isso inclui, nossas relações interpessoais, nossas escolhas de vida, nossos valores, o que esperamos do futuro e nossas crenças do pós morte.
Aprendemos que é preciso escovar os dentes após todas as refeições, mas não aprendemos a dizer não quando alguém nos toca sem consentimento. Aprendemos a importância de fazer atividade física, mas não aprendemos a interromper relacionamentos tóxicos. Aprendemos que temos que dormir oito horas por noite, mas não aprendemos como cultivar amizades na vida adulta.
E em eras de auto cuidado virou sinônimo de skin care, fica ainda mais difícil cuidar de si, porque nem se sabe bem o que é isso. Pois cuidar de si virou sinônimo de produtos de beleza plástica. Já é inevitável para mim virar os olhos quando alguém quer elogiar a aparência, especialmente de mulheres, dizendo "ela se cuida". Quando na verdade só se está constatando o cuidado com a estética.
Nesse Intinerário IV, que irá durar até o meu aniversário (26/08) quero me dedicar a cuidar de mim mesma, atendendo a todas as dimensões do meu ser.
Espero que esse texto lhe ajude a olhar um pouquinho para você mesmo também.
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